outubro 12, 2005

Primordial - The Gathering Wilderness

Começo por dizer que este talvez seja o disco do ano. Os Primordial são uma banda à parte, longe da Europa, recolhidos na periférica Irlanda, o seu death-metal atmosférico e negro bebeu muita inspiração da primeira vaga de black-metal (Bathory, Celtic Frost…) e como eclodiu na mesma altura do grande boom do black-metal da também periférica Noruega, a sua música ficou denominada como black-metal irlandês, mas os Primordial nunca foram uma banda de black-metal puro (leia-se norueguês) e como tal nunca pertenceram a essa vaga do black-metal nórdico, antes foram criadores de um estilo inovador, que misturava a intensidade do death-metal com apontamentos da música tradicional irlandesa (que como toda a gente sabe, é muito provavelmente a par da música afro-americana a música mais importante da história da música no séc. XX) e com homenagens às supracitadas bandas da primeira vaga do black-metal. Por outras palavras, aquilo que uns Burzum e uns Mayhem fizeram na Noruega, os Primordial fizeram na Irlanda, sozinhos, sem nenhuma corrente ou movimento por detrás, logo a sua música acabou por se tornar um recanto isolado, protegido e único, ao contrario da corrente Norueguesa que deu lugar a uma segunda vaga de bandas, criou o grande boom do black-metal, e como movimento acabou com o tempo por sucumbir, com o seu próprio peso e mito, sob as suas cinzas.
Os Primordial regressaram este ano, e pela primeira vez numa editora capaz de lhes dar a exposição que este disco realmente merece. Segundo os próprios o mundo é neste momento um lugar negro para se viver, e como tal o seu disco é um reflexo disso mesmo, negro, obscuro, intenso… Perderam a raiva, a violência, e tornaram-se mais negros… tal e qual o mundo como é hoje em dia. Vivemos tempos conturbados, o medo do terrorismo é apenas uma das faces visíveis, mas a verdade é que o sistema está a sucumbir sobre si mesmo, na América, em desespero de causa agarram-se à santíssima trindade de Deus, Pátria e Família, e da Europa olhasse para o outro lado do Atlântico com a certeza que esse é o primeiro passo para a queda de um Império, na Europa o sonho de uma Europa unida está a sucumbir, porque na realidade esse nunca foi um sonho verídico, a crise económica e politica está a chegar a um ponto de ruptura e as pessoas começam a dar-se conta que vivemos num limbo. A calma antes da tempestade. E os Primordial fazem o disco perfeito nesta conjectura, afinal não é isso que é a verdadeira Arte?
Em sete musicas, os Primordial destilam um death-metal poderoso, negro, hipnótico até, mostrando claramente que mais que tocar muito, o importante é tocar o que interessa, com riffs poderosos, um som sujo, mas muito bem definido, um som puro, sem grandes artifícios de produção, usando instrumentos e material antigo para desse modo atingir a tal pureza que tinham em mente. Num equilíbrio que chega a ser perfeito entre a melodia e o peso, os Primordial dão-nos um disco intenso, melódico, negro e belo, com apontamentos de violino em algumas musicas, com Alan, o vocalista, a encontrar liricamente a ponte para os dias de hoje nas crises por que a sua Irlanda passou ao longo da História, afinal a História é sempre feita em ciclos. E como o próprio diz nas pequenas notas que acompanham cada música, “a História da minha terra é feita com sangue e tragédia”. Uma única palavra pode caracterizar musicalmente este disco: Intensidade. É isso que os Primordial nos dão, um destilar intenso de negrume e beleza. Alan Nemtheanga tem uma voz bastante sui generis. Notasse claramente que ele não canta, ele não berra, nem muito menos faz uma mistura dos dois, antes, não faz nenhum dos registos, fazendo os dois. Estranho? Muito! No metal existem muitas correntes, muitos pontos de vista diferentes, e na voz há dois tipos de vocalistas, os que cantam, e os que gritam. Alguns casos pontuais como Phil Anselmo ou Rob Halford conseguem fazer as duas coisas, gritam e cantam ao mesmo tempo, gritam com melodia, Alan Nemtheanga não canta nem grita, antes imprime melodia na voz ou grita desalmadamente dependendo do que a musica pede em cada passagem. Usa a voz não como um instrumento, mas antes como catalizador de emoções, um actor no seu próprio teatro, uma voz emocional segundo alguns críticos, na minha opinião tal descrição não é completamente exacta, prefiro descrever a sua voz como Intensa.
Nestas sete canções não há tempos mortos, a Intensidade é ponto de ordem ao longo de todo o disco, quer seja em peso, quer seja em melodia, algumas músicas soam a promessa de clássicos, algo que o tempo se encarregará de confirmar. No entanto, uma música tem que ser destacada. Não estando muito acima das restantes, sobressai á partida. “The Coffin Ships”, segundo as notas, era a denominação que se dava aos barcos que levavam os emigrantes irlandeses para a América durante a crise de 1845-49 (tão contemporâneo ainda não é verdade?). Nesta musica os Primordial conseguem levar-nos a um estranho lugar, sempre com o seu riff poderoso ora preenchendo tudo em nosso redor, ora acalmando, tocando esse mesmo riff em harpejo, com uma bateria crua, seca, embalando-nos, sem grandes artifícios nem primores técnicos, para descambar em convulsões quase tribais, com a voz estridente de Alan a pegar na nossa consciência e a levar-nos numa viagem melódica como há muito tempo não se ouvia. Sem sombra de dúvida uma das melhores musicas dos últimos anos, talvez não a cereja em cima do bolo, mas antes uma fatia mais generosa de um bolo delicioso. Não sei se já o disse, mas este é o disco do ano. Descubram por vocês, e repito novamente: de tão intenso, de tão belo, este é o disco do ano.

Nota:9/10

Alinhamento:
1. The Golden Spiral
2. The Gathering Wilderness
3. The Song Of The Tomb
4. End Of All Times (The Martyr´s Fire)
5. The Coffin Ships
6. Tragedy's Birth
7. Cities Carved In Stone

Site Oficial:Primordial

Publicado por almahperditae em 07:03 PM | Comentários (88)