abril 16, 2006

Rui Veloso - Mingos & Os Samurais

Apesar de ser um dos discos mais vendidos da história da musica portuguesa, e até apesar de duas das suas canções terem entrado naquele grupo restrito de músicas tão conhecidas e belas que se tornaram banais, este é muito provavelmente o disco mais incompreendido da música portuguesa.
A dupla Rui Veloso e Carlos Tê demorou perto de dez anos a dar à luz este disco duplo, ou seja, depois do êxito inédito e completamente inesperado que o primeiro disco de Rui Veloso teve, deitaram mãos à obra de criar um disco duplo de homenagem às suas raízes, tarefa gigantesca, entrecortada ocasionalmente com o lançamento de discos “normais” que ajudaram a criar uma bela colecção de autênticos clássicos da musica portuguesa, mas discos que apenas se limitavam a adiar o lançamento do disco definitivo, a obra-prima que eles lentamente congeminavam.
Os discos duplos são geralmente trabalhos de fundo, mais que meras colecções de músicas, obedecem a uma ideia preestabelecida, são discos conceptuais que muitas vezes se perdem no ego desmedido dos seus autores e muitas vezes o seu resultado acaba por ser um tremendo tédio entrecortado com algumas boas ideias que acabam por perder a sua força devido à incapacidade de as desenvolver ao longo de dois discos. É por isso um risco, e os casos de discos duplos de sucesso são raros, e apenas possíveis a algumas bandas ou artistas de excepção. Mas no final de 1990, depois de dez anos de maturação, criação e composição, depois de seis meses em estúdio a conceber a sua obra-prima, Mingos & Os Samurais é editado e o seu sucesso avassalador, batendo todos os recordes de vendas, ajudado por músicas como “Não Há Estrelas No Céu” ou “A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)”, hoje em dia clássicos incontornáveis da música nacional, mas talvez ainda hoje em dia um disco a que nunca se deu o real valor.
A ideia é simples, como o são todas as grandes ideias: contar a história de uma geração, a geração portuguesa de finais dos anos sessenta, princípios de setenta. A doce infância, os amores e desamores, a guerra no Ultramar sempre presente nas entrelinhas, o mundo em ebulição, os ecos do rock que vinha do estrangeiro, o fascismo e a religião que tentavam moldar as mentes rebeldes, a raiva da adolescência, a confusão da adolescência… Contar tudo isto, contar a história de uma geração inteira de todo um pais, usando para tal uma banda fictícia. E através das pequenas histórias, de uma pequena banda, contar assim a grande história de todo um país, de toda uma geração. Confesso que apenas esta premissa me parece de génio, mas esta premissa tão simples e singela é extrapolada bastante mais alem, e este acaba por ser na minha modesta opinião um disco único, e só não digo que consegue ombrear com qualquer disco duplo, mesmo a nível mundial, porque para mim este é o melhor disco duplo que já ouvi.
Musicalmente Rui Veloso recria as suas origens, usando um som datado da altura em que os supostos Mingos & Os Samurais tocavam “no salão dos voluntários”, com pormenores que tanto vão buscar inspiração no blues puro que ele mesmo ouvia, nos Beatles e afins que eram na altura as bandas da juventude portuguesa, nas bandas que alegravam os bailes que na altura existiam, criando assim um caldeirão sonoro confinado a uma época e a uma geração, a época e a geração que eles queriam homenagear. Geralmente é por aqui que os críticos “pegam” neste disco, afirmando que o seu som é retrógrado, atrasado, resquícios até de um certo som “pimba”, mas penso que tais afirmações só podem ser proferidas por quem não entende qual o fundamento e qual a ideia deste disco, porque percebendo que este é um disco que olha para o passado, que tenta recriar o passado, que tenta homenagear esse mesmo passado, tais afirmações perdem completamente o sentido, porque este disco pretende ter um som datado, e de preferência, um som cuja datação seja imediata, e é isso que ele faz, remetendo-nos imediatamente para a música daquela altura, toda a musica, porque este é um disco de toda uma geração. É obvio que uma música é mais que a sua roupagem, e apesar do seu som datado, ouvindo através dessa roupagem ultrapassada (ou não), o que sobra é o talento inquestionável de Rui Veloso e Carlos Tê para escreverem grandes músicas, autênticos clássicos, mesmo que clássicos editados vinte ou trinta anos depois do seu tempo, mas ainda muito a tempo de perdurarem através dos tempos vindouros. E se casos como os de “Não Há Estrelas No Céu” e “A Paixão (Segundo Nicolau Da Viola)” são clássicos por direito próprio (penso que não deve existir uma única noite de karaoke sem que alguém se lembre de assassinar estas musicas), neste disco existem muitas mais músicas que o facto de não terem atingido o mesmo patamar é para mim um mistério, como por exemplo: “Baile Da Paróquia”, “Um Trolha D’Areosa”, “O Prometido É Devido”, “No Dia Da Comunhão Solene”, “Conceição”, “Morena De Azul”, “No Dia Em Que O Meno Rock Morreu”, et cuetara, et cuetara.
Liricamente é Carlos Tê no seu melhor, contando histórias de personagens esquecidas de tempos idos, com todos aqueles pormenores que nos remetem para o tempo dos nossos pais, conseguindo a proeza de (como já disse) contar uma grande história com pequenas histórias de uma pequena história, usando pequenos pormenores, pormenores preciosos, pormenores que nos levam numa viagem através do tempo e nos mostram o que era viver em Portugal nos anos sessenta e setenta, a guerra do Ultramar onde uma geração inteira ficava “perdida no capim”, a juventude que “dava o salto pela fronteira, levando as cassetes dos Doors e alguns livros de poesia” para fugir a essa mesma guerra, as madrinhas de guerra “que rezavam novenas sem fim”, os bailes onde toda a gente ia dançar (e algo mais), os conflitos, as desilusões, os amores e desamores, a infância, a adolescência, os concertos, os músicos, as fãs, a escola, a igreja, os mais velhos, a esperança…
Este é daqueles discos que são mais que a música que se ouve, são pedaços de muitas histórias, acompanham toda uma vida, varias vidas, entrecruzadas pelo destino, pela voragem dos dias que passam. É um disco repleto de nostalgia, a nostalgia dos “bons velhos tempos” mesmo quando esses tempos eram maus, mesmo quando esse tempo era um tempo de desilusão, medo, tristeza e confusão. Mas olha para isso tudo, para esse passado com a doce poesia do que é a juventude, do que é ser criança e ser adolescente, a poesia de olhar para trás e pensar “afinal foi bem bom”. É por essa mesma razão um disco intemporal, e na minha modesta opinião o melhor disco português de sempre, e por isso é plenamente justo ter ainda hoje o epíteto de disco mais vendido de sempre em Portugal, mas tenho muita pena que o queiram reduzir apenas a duas singelas canções, por mais fantásticas que elas sejam, quando a sua maior força, a sua grandiosidade, é o seu todo, é representar toda uma geração, toda uma época. Um disco com um valor histórico imenso, bem mais valioso que duas grandes canções, e por isso mesmo um disco ainda por descobrir. É provável que o tenham ai por casa, peçam aos vossos pais, ou peçam a algum amigo, ou vão procurá-lo na prateleira mais esquecida, aquela onde tem os discos que já não ouvem a anos e descubram por vós mesmos, vale a pena.

Nota: 10/10

Alinhamento:
1. Irmãos de sangue
2. O que eu quero ser quando for grande
3. No dia da comunhão solene
4. O prometido é devido
5. Não há estrelas no céu
6. Twist é sedução I
7. Conceição
8. No extremo do salão
9. Mago do bilhar
10. Sámapatti
11. Tuna recreativa
12. A gente vai na digressão
13. Fio de beque
14. Morena de azul
15. Psicadélico desesperado
16. Zira
17. Baile da Paróquia
18. A paixão ( Segundo nicolau da viola )
19. Twist é sedução II
20. No dia em que o meno rock morreu
21. Um Trolha d'Areosa
22. Embalagem de Damas ( Epílogo )

Site Oficial:Rui Veloso

Publicado por almahperditae em 08:00 PM | Comentários (502)