maio 28, 2006

Assacínicos - Ninguem Sabe Mas Tenho Medo

A música é de todas as artes aquela cujo elemento qualitativo é mais subtil, perto do sublime. A Musica é uma arte perfeitamente racional, a onda de som é estudada pela ciência, as escalas, harmonias, ritmos, são estanques, formatados, o som é captado e trabalhado com os últimos gritos da tecnologia, qualquer onda sonora pode ser alterada, com uma panóplia de efeitos e truques de mistura, tudo é estudado e conhecido, é uma arte pertíssimo da ciência, não há mistérios, não há toques divinos, inspirações repentinas… No entanto, apesar disso, fazer-se um disco com orçamentos monstruosos, em estúdios evoluídos, com músicos de qualidade acima de qualquer suspeita, raramente é sinonimo de qualidade, e por vezes a magia da musica como arte suprema aparece onde menos se espera, nem se percebe bem o que tem de especial, mas sente-se algo de diferente, divino.
Isto para falar de um disco a que tive acesso recentemente que me deixou bastante surpreendido. O nome desta banda é no mínimo imbecil, Assacínicos, nome típico de uma banda aqui da minha zona, com músicos bastante evoluídos mas com péssimos gostos em nomes de bandas, e sem nunca ter ouvido, cometi o erro de imediatamente associar ao movimento típico da zona, uma banda punk, bebendo bastante do grunge, com alguns pormenores que chegam ao metal, letras de um humor pretensamente non-sence, que mais não é que uma imbecilidade a raiar o limite do bom-gosto. Já tinha visto alguns títulos do seu disco, e isso apenas me confirmava o que pensava, o interesse era nulo em ouvir a rodela. Grave erro. Por acaso ouvi uma faixa, que não consegui identificar, e quando soube o que era… Fiquei no mínimo surpreendido, a sua qualidade era fenomenal, pedi o disco emprestado, tinha que ouvir com atenção esta banda que me recusava a conhecer…
Primeiro ponto, não faço a mínima se este disco tem distribuição nacional, sei que foi editado em 2004 por uma editora local, nem sei se será fácil encontrar o disco na net, mas sei que vale bastante a pena ouvir este disco, se não conseguirem, tentem, procurem, vale mesmo a pena…
Os Assacínicos encontram-se num limbo entre o rock e o metal, naquela plataforma que em Portugal tem um único nome: Mão Morta. Será justo classificar esta banda como uma imitação de Mão Morta? Justo nunca é, mas também não é demasiado injusto, afinal as inspirações em Mão Morta são muitas, mas ao contrário de outras bandas que fazem o mesmo, aqui nunca a expressão “cópia rasca” pode ser usada, se é cópia em alguns momentos é uma cópia muito bem feita, daquela cópia que tem um nome diferente, tipo… Inspiração. Peguem nos elementos de Mão Morta, aquele rock hipnótico e brutal, e misturem-lhe elementos diversos a colorir, do doom ultra pesado, a algumas reminiscências de Zeca Afonso, duma intensidade perto do hardcore, ao respeito pela tradição musical portuguesa, para obterem um caldeirão sonoro algures entre Mão Morta e Sétima Legião. É este o universo dos Assacínicos.
E o que nos dá a ouvir estes doze temas para alem duma reminiscência do som de Mão Morta? Claramente bastante. Esta banda consegue fazer uma mistura brutal de várias correntes da musica nacional com o melhor do rock internacional, nota-se influencias variadas, mas recriam todas essas influencias dispares num som único, maciço, com uma personalidade única, com um sentido rítmico e melódico, com uma maturidade como muito raramente se ouve num primeiro disco. A riqueza cromática deste disco chega muitas vezes a estar próximo da genialidade, as guitarras conseguem imprimir o ritmo balanceado, pesado e hipnótico que guiam os sentidos através de paisagens negras e sujas, cheias de pormenores que enriquecem a musica, com licks curtos, gritantes, pormenores que conseguem transpor a musica para um nível superior. Um trabalho simples, sem megalomanias, mas com uma qualidade sonora que chega a ser desconcertante. Melodicamente é irrepreensível, ritmicamente demolidor.
Infelizmente, em alguns trechos de algumas músicas, o encantamento é quebrado devido a uma linguagem vernácula, na minha opinião despropositada. Não tenho nada contra calões, asneiras, frases e palavras mais fortes, fazem parte da nossa cultura, da nossa linguagem, uso-a em demasia até, mas as palavras necessitam de um enquadramento, de um sentido, e nos casos em que são usadas soam demasiado forçadas, na minha opinião, liricamente bastante mal usadas, e por isso totalmente desnecessárias, prejudiciais até. Resumidamente, fica mal com’ó caralho.
E se acham que a ultima frase foi demasiado forçada, ignorem, mas não ignorem este disco, porque fora palavrões forçados este disco é uma pequena obra de arte, infelizmente talvez condenado ao esquecimento, afinal as condições da musica rock neste pais são o que são, os obstáculos são muitos e o apoio nulo, eventualmente acabarão por sucumbir como tantas outras bandas, mas… não era fenomenal haver uma banda que conseguisse romper esta inércia? Uma banda nova e fresca, cheia de ideias, de personalidade, que conseguisse aquela sorte extra que faz toda a diferença? Ouçam o disco, provavelmente chegarão à mesma conclusão que eu – Esta banda merece mesmo essa sorte extra.

Nota:9/10

Alinhamento:

1.O Meu Receio/Não Posso
2.Querida Amiga Ensina-me
3.Vejo-te
4.As Miúdas Dão-se Bem
5.Je Ne Comprend Pas Ce Que Tu Dis
6.A História Dos Cavalos
7.Amélie
8.Chávenas Quentes
9.Está A Queimar
10.Afinal Que Horas São?
11.Tinto Indiano
12.Esqueceste

Publicado por almahperditae em 05:44 PM | Comentários (157)

maio 15, 2006

Moonspell - Memorial

Existe algum desconforto neste disco. Não falo apenas da questão de pela primeira vez os Moonspell estarem no top nacional, essa questão é falsa, os Moonspell sempre venderam bem, provavelmente até já venderam melhor, só que até este disco a distribuição era efectuada por uma empresa fora do grupo de pressão das grandes editoras, logo a venda dos seus discos não contava para o top. Agora com distribuição da Universal, parece que o mainstream acordou para os Moonspell, tarde, muito tarde, pateticamente tarde… mas adiante…
Existe algum desconforto neste disco… Na primeira audição não gostei. Insisti. E o disco começou a crescer dentro de mim, mas continuei a sentir um qualquer desconforto, que não conseguia saber qual era. Talvez (e esta foi a primeira teoria) o facto de o disco não ser imediato, não ser um murro no estômago, não ser fresco, não ser belo, daquela beleza de paixão à primeira audição… O facto de não ser um disco normal dos Moonspell. Mesmo na fase madura dos Moonspell havia sempre resquícios da genialidade e originalidade dos primeiros discos (ver editorial em que falo disto), neste disco essa originalidade e beleza não é (não foi para mim) clara na primeira audição. Mas o disco cresceu dentro de mim, canções como “Luna” e “Once It Was Ours!” não ficarão nada mal juntamente com outros clássicos da banda, mas havia sempre um desconforto a trespassar todo o disco…
Foi quando me lembrei de uma frase do Fernando Ribeiro numa das suas crónicas, salvo-erro aquando da morte de Quorton, recordando “o tempo em que fazia golpes na pele jovem” e percebi qual o desconforto do disco: a urgência do tempo, o regresso à memória, a reminiscência das laminas na pele… Neste disco os Moonspell regressam ao passado, injectam na musica o poder dos velhos tempos, abraçam as memórias do black-metal, injectam vida e juventude ao negro sempre presente da Vida, voltam à genialidade dos primeiros discos, mas perderam a originalidade e a frescura dos primeiros tempos, afinal, as feridas na pele já cicatrizaram, a ânsia do criar, a fome do fazer já foi saciada, ganharam experiência, ganharam saber, cresceram enquanto músicos, venceram no mundo cão das editoras, digressões e tops de vendas, construíram uma carreira segura e prolifera e tentam agora voltar à ingenuidade inicial, como se nada tivesse valido a pena, como se tudo precisasse de ser construído novamente, como se a fome fosse igual… E é esse o desconforto do disco, a memória sempre presente da juventude perdida, o ouvir o disco e lembrar-me de quando comecei a ouvir metal com os primeiros discos dos Moonspell e dos Cradle Of Filth, e ver e sentir que agora já nada é original, já nada é fresco, já nada é uma novidade. Nem para mim nem para eles, eles já não tem a fome e a necessidade de fazer um disco perfeito, já o fizeram, eles querem é voltar a sentir o prazer dos bons velhos tempos, voltar a ser putos com sonhos, tocar riffs com a ilusão que vão mudar o mundo, gritar alto para serem ouvidos, enlevar a assistência com linhas de teclado arrebatadoras. Nota-se em todo o disco o desespero, não o desespero de não serem ouvidos, de não mudarem o mundo, não o medo de não serem compreendidos, esse medo já o venceram, porque são vencedores, nota-se isso sim o desespero de já não serem inocentes, não serem ingénuos, como já o foram. Agora eles sabem que são ouvidos, sabem que os riffs já mudaram o mundo, sabem que tem diante de si multidões arrebatadas, não precisam de conquistar nada, apenas querem sentir novamente a fome de conquistar. Agora são mais complexos, recusam o caminho fácil, sabem que a facilidade é uma chatice, sabem que serão ouvidos, e se alguém como eu não entender à primeira, insiste, e descobrirá o prazer de ir descortinando o disco. Antigamente não havia segundas oportunidades, se o "Irreligious" não me tem assaltado imediatamente como um dos grandes discos de sempre, provavelmente não o descobriria, não lhes daria esse ónus. Os Moonspell neste disco tentam, de um modo mais maduro, mais complexo, dar o passo seguinte na sua evolução, o passo de voltar atrás. Uma banda é como qualquer pessoa, passa por diversas fases, e os Moonspell já passaram quase todas as fases, nasceram e cresceram, rebelaram-se contra as suas origens e experimentaram outros caminhos, encontraram o seu espaço, e agora olham para trás e dizem para si mesmos “e se agora, com tudo o que aprendemos, voltássemos à nossa origem?”. E regressaram à sua antiga casa, já não para ai tentar sobreviver, na luta incansável pela conquista, mas para ai apreciarem calmamente os bons tempos ai passados. E é afinal esse o desconforto do disco: o ser um estranho no seu território natal, como tudo olhar, tudo recordar, mas já nada tocar, pois já tudo são apenas memórias, e tudo fazem novamente como naquele tempo longínquo… Existe o mesmo desconforto que quando se visita o velho campo pelado, e se pega uma bola na tentativa desesperada de sentir a velha alegria de criança, em que a bola velha e gasta era todo o mundo conhecido e que interessava. O desespero de ser o que se foi, mas já não o poder ser… E é esse sentimento, desse desespero, desse misto de dor e alegria que se sente dentro de nós, que eles nos passam, que eles nos gravam na pele e na alma. È a saudade que eles nos fazem sentir da nossa juventude que nos torna a audição deste disco tão desconfortável.
Existem duas formas de olhar para os Moonspell neste disco: a triste constatação da sua decadência, um prenuncio para o seu fim, um alarme final de que deixaram de evoluir e brevemente se dissipam da memória. Ou, que estamos na presença de uma banda rara, capaz de ser objectiva, analítica, e com um sentido apurado sobre a sua própria condição de banda, com a noção perfeita do que são enquanto entidade (e aqui incluo tudo, até a sua base de seguidores) e conseguem com um domínio perfeito sobre algo tão volátil quanto a música e as emoções, criar a banda sonora perfeita, para o momento ideal…
Vou ser muito sincero, acredito na segunda hipótese, acho que eles fizeram neste disco, não o seu disco perfeito, nem sequer o seu melhor disco, muito longe disso até, mas fizeram o disco perfeito para esta fase do seu crescimento, provando a quem os acompanha que estamos na presença de uma banda muito, muito especial, e que provavelmente temos aqui uma banda para muitos e longos anos, pois souberam aceitar que o inicio, a sua infância e juventude é isso mesmo, um passado orgulhoso em que se venceu, com a inocência e ingenuidade próprias do crescer e aprender, e conseguiram ao longo da sua existência crescer até ao ponto em que se regressa ao passado sem traumas, e se brinca novamente como no passado, gozando com as memorias dessa inocência, mas com a perfeita consciência que essa brincadeira é uma recordação, um álbum de recordações que se folheia, uma compilação de memorias,.. Um memorial.
A minha questão é: Serão entendidos?

Nota:8/10

Alinhamento:
01. In Memoriam
02. Finisterra
03. Memento Mori
04. Sons Of Earth
05. Blood Tells
06. Upon The Blood Of Men
07. At The Image Of Pain
08. Sanguine
09. Proliferation
10. Once It Was Ours
11. Mare Nostrum
12. Luna
13. Best Forgotten
14. Atlantic (Bonustrack)

Site Oficial:Moonspell

Publicado por almahperditae em 03:45 PM | Comentários (10482)

maio 12, 2006

Sexo, Drogas E Rock & Roll #1

Talvez não seja tão complicado como pode parecer a primeira vista discernir o momento em que o rock & roll nasceu. Não se sabe ao certo o dia, mas sabe-se a hora exacta. Meia-noite, num qualquer cruzamento na América profunda dos anos 30 do séc. XX. O seu criador? Robert Johnson. O seu mentor? Satanás.
Conta a lenda que um jovem guitarrista negro sem talento, sem qualquer apoio na vida, perdido numa América racista, preso numa vida de miséria, tinha um sonho: ser músico. Mas o blues que crescia no sub-mundo dos campos de algodão, memorias perdidas de uma Africa longínqua para toda uma classe de pobres trabalhadores negros, era algo inacessível a um pobre adolescente sem o mínimo talento, foragido de uma vida de miséria e de crime, condenado a uma existência fugaz, sem sentido, esquecida… mas numa noite que ele fez questão de recordar, num qualquer cruzamento que a memoria não reteve, o seu destino mudou, e com ele todo o destino da musica no séc. XX. Encontrou o Diabo, que lhe prometeu o talento em troca da sua alma, comércio que o jovem não hesitou em aceitar, visto que a sua alma de pouco ou nada valia. O adolescente continuou a fugir, mas em cada cidade que chegava, fruto de acasos, de conhecimentos fugazes, do destino talvez traçado pelo próprio Satanás, fazia sempre uma breve passagem por um qualquer estúdio de gravação arcaico, perdia sempre quinze a vinte minutos do precioso tempo do estúdio para gravar umas brincadeiras com a sua guitarra de péssima qualidade, barata, brincadeiras que divagavam entre amores perdidos, solidões demasiado violentas, e Satanás… sempre a pairar sobre a sua vida.
Gravou ao todo trinta e nove canções, que foram recolhidas ao longo de alguns anos por um editor que ouviu por acaso uma dessas gravações esquecidas num estúdio, e fez questão em descobrir o homem que as tinha gravado. Nunca o descobriu, soube que tinha morrido, nunca conheceu o negro que cantava e tocava como nunca ninguém tinha ouvido até então, mas fez questão em divulgar essas gravações que foi descobrindo na busca de Robert Johnson, mostrou ao mundo o génio que mudou todo o curso da música.
Depois de Robert Johnson nunca mais nada foi como até então. E foi este o momento em que nasceu essa fantástica aventura que é a música popular do século XX. Rock & Roll, Soul, Jazz, Metal, Hip-Hop, Pop, Techno, Trance, Punk… Toda a música no século XX tem um nome: Robert Johnson.

Publicado por almahperditae em 05:04 PM | Comentários (833)