Eu não quero ser chato… Mas já sendo. Nesta entrada vou ter que contradizer basicamente toda a gente e basicamente toda a critica profissional. Inclusivamente tenho que contradizer até a minha opinião!
De quem lê aqui o Templo Da Música, não sei quantas pessoas gostam e conhecem o mundo do metal, nem sei quantas pessoas nos seguem com atenção, mas quem está por dentro do que vou dizer a seguir, não estranha aquela velha frase feita que os Cradle Of Filth já deram o que tinham a dar, e apesar de ainda serem um nome relativamente importante, a sua importância é olhada com grande desconfiança, porque a verdade é que se à 10 anos eles eram uma das forças mais originais e geniais do metal europeu, de lá a esta parte a sua qualidade degenerou a um nível quase anedótico, rasteiro, para não dizer imbecil. Verdade seja dita, uma banda que faz um disco genial como o “Dusk… And Her Embrace” ainda merece uma olhadela a cada novo disco, mas comparando com esse portento do black-metal, o torcer do nariz era cada vez mais notório, e já se estava a chegar a um ponto em que cada novo disco já era ouvido com o pé atrás, já não se esperava muito deles, e já começavam a ser postos na prateleira, e a chegar-se à conclusão que daqui já não vinha mais nada. Era uma questão de tempo até morrer de vez.
Dentro desta conjectura, não estranhei as criticas lidas a este novo registo dos C.O.F. e também eu acreditei que este era um titulo a ouvir apenas pela curiosidade, apenas mais um numero a fazer crescer a lista dos discos, mais um nome, mais nada que isso. Sim. Era apenas mais um mau disco dos C.O.F., talvez lá estivesse uma musica até engraçada e mais nada que isso.
Mas não. Não se trata nada disso. Este disco é a prova que os C.O.F. ainda não morreram, e a espera se não compensou, pelo menos justificou ainda se lhes dar ouvidos. Não, este disco não é o “Dusk… And Her Embrace”, se não é impossível superar esse disco já com 10 anos, isso apenas se deve ao dogma de que não há impossíveis e pelo menos na esfera do insólito isso ainda é possível, mas este disco é a prova cabal de que os C.O.F. ainda são uma banda que merece ser ouvida e ainda são uma banda com personalidade no mundo do metal.
Aqui o rótulo black-metal ainda faz sentido, mas já é algo limitativo. Este não é um disco de black-metal puro, nem dentro do black-metal especifico que os C.O.F. criaram à mais de uma década. Aqui a banda inglesa alargou o seu espectro dentro da musica mais extrema e bebe muito de um death-metal que tanto tem de tradicional como de moderno, bebe até de uma essência que tem um certo travo a heavy-metal e principalmente soube ligar todos estes elementos de um modo magistral, criando um perfume que se não tem o mesmo poder de arrebatamento de outrora está lá muito próximo.
Passo a explicar. Para quem está dentro deste universo, talvez não haja aqui nada de surpreendente, o que aqui nos é dado a ouvir já foi inventado, já foi gravado e já está completamente assimilado, mas para quem não está completamente familiarizado com o universo metaleiro, neste momento talvez não exista outro disco tão sintético e tão abrangente como este da musica extrema. Por isso este é um disco a ter em conta para todos aqueles que estão a entrar dentro do som eterno, e este é um disco em que quem não está ainda à vontade pode pegar, para começar a desbravar aquilo que aqui está exposto e assim começar a conhecer os meandros do universo metal. Como se isto não fosse já um ponto a favor, neste disco os C.O.F. conseguem inclusivamente pegar nesta resenha perfeita da música extrema e embrulhar tudo com aquela sensibilidade especial que os tornou míticos. Um sentido rítmico e melódico com conta, peso e medida, a capacidade de criar atmosferas densas e cortantes, uma dinâmica arrebatadora e hipnotizante, um sentido pop agudizado, e finalmente, a grande qualidade desta banda, e aquilo que os tornou especiais, o saber construir grandes canções. Atenção ao pormenor, a diferença entre “construir” e “criar”. Aqui não são criadas grandes canções, esse ceptro terá que ser entregue a outras bandas, mas neste disco os C.O.F. pegam nas grandes canções criadas no passado mais ou menos recente e constroem um disco coeso, melódico, pesado e com uma qualidade que lhes permite retomar o lugar que no fundo sempre foi deles: o da melhor banda extrema do metal europeu.
Para mim, para muitos já habituados a bandas como Bathory, Emperor ou Arcturus, para todos aqueles que conhecem Opeth, In Flames ou Hypocrisy, para quem já ouviu Tiamat, Green Carnation ou Amorphis, ou seja, todos aqueles que possuem uma cópia do “Dusk… And Her Embrace” este disco será ouvido um pouco de pé atrás, mas para todos aqueles que pensam que o metal europeu se resume a After Forever, Nightwish e H.I.M., este será um disco em alta rotação nos próximos meses, e principalmente, para toda a gente que apenas conhece essa coisa abjecta que são os Lordi, este será o disco que os levará a tomar nota da existência dessa coisa estranha e misteriosa a quem outrora alguém se lembrou de chamar Metal. E desse modo este “Thornography” tornar-se-á exactamente aquilo que o “Dusk… And Her Embrace” foi à 10 anos, um portal de entrada no universo negro e distorcido da música extrema. Devido à beleza única e especifica desse universo, esse portal tem que ser tão grandioso, majestoso e belo como o mundo sobre o qual se abre, e se duvidas houvessem sobre quem teria a capacidade de construir esse portal, ouvindo com atenção este disco essas duvidas dissipam-se. Apenas e só os Cradle Of Filth poderiam rasgar o bendito mainstream e dar a conhecer a uma imensa geração emergente o verdadeiro som metálico. Minhas senhoras e meus senhores, apresento-vos acabadinho de sair, ainda fresco e por desvendar, aquele que talvez se venha a tornar o disco de metal mais importante da década: “Thornography”.
Nota:8/10
Alinhamento:
1. Under Pregnant Skies She Comes Alive Like Miss Leviathan
2. Dirge Inferno
3. Tonight In Flames
4. Libertina Grimm
5. The Byronic Man
6. I Am The Thorn
7. Cemetery And Sundown
8. Lovesick For Mina
9. The Foetus Of A New Day Kicking
10. Rise Of The Pentagram
11. Under Huntress Moon
12. Temptation
Site Oficial: Cradle Of Filth