
Corria o ano de 1994, quando num dia de Abril uma noticia caiu que nem uma bomba sobre toda uma geração. Kurt Cobain, vocalista e guitarrista dos Nirvana, estrela rock, proclamado líder de toda uma geração tinha sido encontrado morto, causa oficial: ferimento mortal auto-infligido. E a questão do suicídio ganhou o seu exemplo mais mediático de todos os tempos.
O que levaria um homem que tudo tinha, a quem nada faltava, a decidir por um termo na sua vida? A questão da droga foi prontamente avançada como causa, problemas psiquiátricos demasiado profundos não podiam ser descurados, a pressão do mundo da musica o motivo mais consentâneo, mas na verdade, no fundo, foi tudo isso, e não foi nada disso. Matou-se. Pura e simplesmente. Não havia razões e havia todas as razoes. Kurt Cobain suicidou-se. E o mundo da musica via cristalizar-se um dos seus mitos mais estranhos e intensos, uma das personagens mais geniais, loucas, belas, desesperadas, raivosas, poéticas e emocionais de todos os tempos, uma das estrelas mais brilhantes de todos os tempos. Talvez… talvez muito provavelmente, naquele triste dia de Abril nasceu o maior ícone da história da musica…
Quem leu a ultima frase talvez parta do princípio que Kurt Cobain é Kurt Cobain, pelo simples facto de ter cometido suicídio. Não faltam exemplos de figuras banais, ou até medíocres cujo único lugar na história musical se deve a erros cometidos na sua vida, uma morte mais dramática, lendas criadas em seu torno, ou qualquer outra coisa que pouco ou nada tem a ver com a música. Kurt Cobain não se insere nesse grupo, antes a sua morte foi um encerrar lógico e tristemente previsível de um génio demasiado brilhante e atormentado que num curto espaço de tempo se desenhou nos píncaros da fama mundial, ante o olhar estupefacto de hordas de seguidores e admiradores. Quando toda a gente se surpreendeu com o seu génio, com a sua pureza, a loucura foi arrebatadora, a ascensão meteórica, e quando toda a gente esperava o seu afundamento abrupto, a queda do Deus com pés de barro, o seu génio brilhava ainda mais intensamente, e quando os mais cépticos se começavam a render à sua genialidade, começando a admitir timidamente que o rapaz até tinha algum talento, Kurt Cobain atingiu níveis musicais provavelmente nunca antes atingidos, e já não havia duvidas, o que ali se desenhava não era um acaso, não era uma moda passageira, não era sorte, já nem era puro talento, era antes o mais brilhante e refinado diamante que alguma vez tinha atingido as tabelas de vendas. No alto do seu trono, com o mundo a seus pés, com a industria e o publico rendidos, Kurt Cobain suicida-se, e o seu vazio foi transposto para um mundo atónico e incrédulo, nas semanas seguintes à sua morte as taxas de suicídio na América atingiram níveis recorde, o líder da geração do vazio tinha posto fim á vida e a geração do vazio foi atrás.
Mas quem era este homem? Quem era este musico? Que fez este homem para o seu legado ser neste momento o legado mais rentável do mundo? Isto apesar dos seus direitos de autor estarem duramente protegidos e a sua música e imagem estarem expressamente proibidas de serem usadas, embora a sua imagem seja de tal modo iconográfica que é legalmente possível fazer filmes biográficos sem uma única menção ao seu nome. A musica essa é que continua protegida, mas devido á sua influencia em tudo o que se fez nos últimos quinze anos, é muitíssimo fácil encontrar alternativas, mesmo sem ir para os casos mais mediáticos (para muitos jovens nascidos já os anos 80 iam avançados, deve ser complicado aceitar que bandas como os Blur ou os Radiohead são subprodutos do legado Nirvana).
O êxito dos Nirvana, apesar de possuir contornos míticos, tem várias explicações simples de entender. Em primeiro lugar, o mais importante, a musica. Não sendo uma música complexa, é uma música que possui contornos originais. Não sendo um guitarrista evoluído nem completo, Kurt Cobain era um guitarrista com uma capacidade de transpor para o ouvinte uma panóplia emocional complexa e de fácil acesso, possuía uma riqueza cromática rara e um sentido de dinâmica único. A sua voz, imagem de marca de toda uma geração, possuía a riqueza e o toque divino apenas acessível aos predestinados. Mas principalmente o seu génio estava nas composições, simples, facilmente identificáveis, facilmente tocáveis, quase como canções infantis, mas canções com uma sensibilidade pop, canções com aquele toque indescritível que faz as grandes canções imortais. Como hinos. Na minha modesta opinião, o único compositor de todos os tempos que não tinha variações na qualidade das composições, tudo o que fazia era divino, e não há um único exemplo de uma má canção, algo que nem os maiores compositores de sempre conseguiram, Lennon fez más canções, Dylan também, até Mozart e Bethoven tiveram os seus maus momentos, Cobain não.
Liricamente Kurt Cobain era um poeta. Apesar de não dar nenhuma importância ás letras das suas canções, as letras de Nirvana eram autênticos manifestos de uma geração perdida. Usando uma linguagem simples, Kurt Cobain desenhava imagens, momentos, emoções, filosofias que longe de se fecharem permitiam leituras múltiplas, permitiam interpretações cada vez mais densas, se desdobravam em versos que eram autenticas palavras de ordem, criando um caldeirão lírico que olhado superficialmente pode ser ora menosprezado ora inacessível, mas através de leituras e interpretações mais amplas acaba por ganhar uma dimensão que nunca chega a ser definitiva, dando azo a constantes debates e interpretações sempre subjectivas, nunca conclusivas, mas sempre belas e poéticas.
Por ultimo, a musica de Nirvana tinha uma qualidade sui generis no seu todo, apesar da voz de Kurt Cobain ser atormentada e dolorosa e liricamente ele preencher essa sonoridade com versos condizentes, a sua musica possuía um brilho quase simetricamente oposto, tinha fulgor, elevava o espírito, tinha algo de esperança, tinha algo de sublime e celestial, mesmo quando o seu som era sujo e violento. Deste modo a sua música era quase uma salvação para os seus fãs, apesar do desespero, apesar da dor, havia sempre aquela esperança, havia sempre o sorriso a rasgar as lágrimas…
Se estas qualidades, já de si únicas e especiais, não chegassem, Kurt Cobain tinha também a seu favor o tempo em que viveu. No inicio dos anos 90 o mundo atravessava uma crise económica, a Tempestade No Deserto tinha acabado de explodir (algo ainda não resolvido nos dias de hoje), e como tal, a geração emergente vivia uma grave crise de identidade, hoje em dia isso ainda é perfeitamente visível, porque o Ser Humano ainda não percebeu que estas crises são cíclicas e perfeitamente normais, e não adianta os nomes ou as desculpas que lhes dão, a verdade é que existem, e como tal o desespero, a crise de identidade, o tormento por que passava Kurt Cobain encontrou toda uma geração completamente permeável ás suas palavras, sedenta de um líder, de alguém que expiasse as suas próprias crises pessoais, o seu desespero e o seu tormento. Toda uma geração viu em Kurt Cobain o seu líder, identificou-se com a sua Arte, usou-o como porta-voz, como mártir, e rendeu-se ao seu génio. O seu suicídio foi desse modo para alguns o quebrar da esperança, por isso os níveis recorde de suicídio nas semanas seguintes. Para outros foi uma traição, uma fraqueza, desse modo hoje em dia muitos dos seus mais apaixonados detractores são indivíduos que outrora foram os seus mais fiéis seguidores.
Se nas razões apresentadas anteriormente estão as principais razões do mito de Kurt Cobain, existe ainda uma outra razão que muitas vezes é descurada. No final dos anos 80 havia um fenómeno na industria musical, não interessa qual o nome que se dava aos géneros musicais, ou qual a compreensão que havia naquela altura desse fenómeno, hoje em dia, já na segunda metade da primeira década do séc. XXI, é muito fácil compreender esse fenómeno, pelo simples facto que esse fenómeno ainda existe. Falo da musica pré-fabricada pelas editoras, a musica em que o talento ou a qualidade nada têm a ver com o facto de vender e ser popular, tudo não passa de produtos criados pelas editoras, que usando os media manipulam uma imensa maioria de pobres almas ignorantes e assim conseguem criar tabelas de vendas, produtos de entretenimento multifacetados, e desse modo alimentam uma máquina que se fecha sobre si mesma e se blinda de tudo o que a Arte tem de puro e sublime, criando uma aura de encantamento de massas perfeitamente previsível, falsa e ignorante. Mas naquela altura houve um facto que fez abalar por momentos a máquina, uma banda bastante popular na altura (Milli Vinnili se alguém tiver interesse em saber) que apesar dos prémios da indústria, dos milhões de discos vendidos e da popularidade planetária, quase destruiu a indústria musical. Num concerto, um simples disco riscado fez estalar o escândalo, os pobres moços não cantavam, na verdade eles nem tinham nada a ver com a musica, eles apenas foram as carinhas larocas escolhidas e vestidas pela industria para dar a cara e um ar da sua graça a um disco previamente gravado e tudo não passava de um logro da industria. Por momentos a maquina vacilou, ninguém acreditava já nos artistas populares, e é nesse momento, quando se chegava à conclusão que tudo era apenas falsidade e mentira que o riff da “Smells Like Teen Spirit” rasgou a desconfiança, ecoou em toda a sua grandiosidade e pureza, brilhou fulgurantemente no meio da lama do mainstream, e todo o mundo se deixou enlevar pela musica e tudo o que ela tem de puro, sublime e mágico. O público, quer o ignorante quer o outro, encantou-se, afinal a magia ainda existia, afinal a musica ainda era uma Arte arrebatadora. A indústria suspirou de alívio, era uma excelente maneira de esquecer o abalo anterior, foi atrás da onda em bicos de pés, e durante alguns anos entregou o mainstream aos artistas puros, para passar uma esponja sobre o escândalo. E por momentos na indústria musical respirou-se um ar de qualidade, pureza e magia…
No centro deste terramoto, isolado e majestoso, um nome brilhava mais alto, uma voz gritava para o seu eco perdurar através dos tempos, apesar de perdidos na sua própria confusão, uns olhos azuis olhavam a confusão em seu redor, uns dedos embalavam as cordas de uma guitarra que embalava toda uma geração, todo um planeta… Os mesmos dedos que no dia 5 de Abril de 1994 agarraram uma arma, encostaram o cano ao queixo, e num acto desesperado e decidido, dispararam a arma, espalhando o seu sangue, pele, ossos, dentes e cérebro pela parede da arrecadação do seu jardim, escrevendo deste modo o ultimo capitulo, do ultimo e maior mito da historia da musica – Kurt Cobain. E a musica nunca mais foi a mesma… Nem tão boa.