A música talvez seja de todas as artes a mais universal. É um facto. A pintura deve estar lá perto, qualquer uma das duas fazem parte da nossa história e cultura desde os primórdios dos tempos. São factos irrefutáveis, o Ser Humano não o é sem nenhuma destas artes, sempre nos acompanharam e sempre nos irão acompanhar enquanto o planeta ou algo que venha contra ele não acabar de vez com a nossa espécie. Qualquer uma das duas sofreu e sofre alterações que sempre acompanharam a evolução da Humanidade. Também é um facto, não há refutação possível. Mas este texto, como é obvio, apenas incidirá na musica, mais exactamente na questão do momento na musica, ou melhor, na industria musical – a partilha e/ou roubo de musica na Internet.
Sou completamente a favor. Mais. Acho que é a melhor coisa que aconteceu à indústria musical desde a invenção da gravação áudio. Por outras palavras, desde o início da indústria musical, tal como hoje em dia a conhecemos, até ao seu fim os seus maiores momentos foram a sua génese e o seu fim. No meio… apenas existiu o melhoramento das técnicas de gravação e o aparecimento do disco compacto de leitura a laser, que não serviu mais nada senão a própria industria.
A industria musical sempre existiu, desde os primórdios dos tempos que existem os músicos, a musica sendo uma arte universal sempre foi usada, quer para entretenimento, quer para a elevação do espírito humano, quer seja o trovador da Idade Média que percorria as estradas poeirentas de aldeia em aldeia tocando nas festas populares, quer seja um compositor magistral como Bach que era pago pela Igreja para compor musica para as missas, sempre existiu profissionalismo na musica e músicos profissionais, que dependendo do seu talento, ora tiveram vidas de luxo, ora tiveram vidas errantes no limiar da indigência. A diferença para a indústria musical dos nossos dias não é muita. Por isso, na minha opinião, acredito piamente que a partilha/roubo de musicas na net não dizimará a classe dos músicos, esses continuarão a sofrer as suas angustias pessoais e, caso o seu talento assim o permita, conseguirão ser profissionais, e alguns até terão o privilégio de uma vida de luxo à conta da musica. E não tenho nada contra isso, antes pelo contrário, adoraria saber que os meus músicos favoritos são tão bem sucedidos que compram Ferraris e Aston Martins como quem compra cuecas. Não me choca, e tristeza, só a de o meu talento de guitarrista não me permitir isso.
Segundo ponto, não tenho pena nenhuma das editoras que sucumbirem nesta revolução. As editoras exploraram os músicos e os seus consumidores devido a uma ganância exacerbada? Sim! Mas também há outras questões que nunca foram analisadas. Durante praticamente todo o século passado as editoras prestaram um serviço à música, e por arrasto, à Humanidade, que não pode ser desprezado nem esquecido. Durante milhares de anos a musica vivia apenas da presença física dos músicos, mal o musico se silenciava a musica morria consigo e a sua magia perdurava apenas na memória. Claro que as boas canções foram preservadas por outros músicos, foram passando de dedos em dedos, de voz em voz, e foram sendo reinterpretadas através dos tempos chegando até aos nossos dias. Ao longo do tempo vários sistemas de notação foram criados de modo a preservar por escrito algo tão etéreo como a musica. Mas… Nunca ninguém pensou como soaria uma peça de Mozart tocada ao piano ou violino pelo próprio? Como soaria o órgão de Bach com o próprio a interpretar? Como seria estar de olhos fechados a ouvir Paganini a tocar violino a nosso lado? Que sensações nos trespassariam caso Bethoven fustigasse o piano sem pernas e nós o ouvíssemos? Como seria? Provavelmente seria maravilhoso, mas nunca o saberemos… Felizmente no século passado não existe nenhum génio musical que nós não tenhamos a possibilidade de sentir a sua musica, tocada pelo próprio, sentida pelo próprio, e mesmo as versões, poderemos sempre ter a versão com que nos cruzámos e ouvir a mesma canção tal e qual o seu criador a sentiu. E isto é algo que teremos que estar agradecidos à industria musical, isto é algo sem par na historia da musica, o privilégio de poder ouvir génios, mesmo após a sua morte, a possibilidade de ouvir registos de músicos de paragens longínquas, músicos e musicas que nunca poderíamos ouvir caso não existisse uma industria musical que com sacrifício e amor à camisola da musica nos deram esse raro privilégio de ter músicos em casa, a tocar só para nós.
Claro que hoje em dia ninguém imagina uma major como uma empresa de sacrifícios, toda a gente tem a ideia de as editoras serem sanguessugas, principalmente as grandes editoras, e toda a gente tem a sua razão. No ano de 1985 a Phillips desenvolveu um sistema de leitura de áudio através de um laser, e a industria sofreu uma nova revolução. Teoricamente a qualidade era bastante melhor que o velho vinil (na prática não é assim, mas esta prática só foi descoberta recentemente e não é uma diferença audível, apenas sentida, de qualquer dos modos já é tarde para resolver esse problema… ou não), o produto final tinha custos de produção 50% mais baixos, para alem de ser bastante mais duradouro. Resultado, foi a galinha dos ovos de ouro da industria musical, e nos últimos 22 anos a industria musical teve metade dos gastos na produção dos discos, vendeu os produtos ao dobro do preço e revendeu novamente tudo aquilo que já tinha vendido antes da era do CD. Quem ganhou com isso? As editoras claro. Mas não só. Por incrível que pareça quem ganhou mais com esta súbita avalanche de dinheiro foi outra arte, o Cinema, que alimentado pelo dinheiro resultante da venda de CD’s sofreu nos últimos 22 anos uma evolução tecnológica sem precedentes. Claro que a evolução da informática foi fulcral em todas as áreas, mas apesar de tudo o Cinema foi dos que mais ganhou com isso, porque as editoras musicais a braços com números avassaladores investiram enormes quantidades no Cinema.
E chegamos agora ao ponto fulcral, o mp3. Sim, sou completamente a favor. Se é o fim dos músicos profissionais? Não, já disse porque não. Se é o fim da industria? Como a conhecemos sim, terá que mudar. Como? Voltando a ser aquilo que sempre foi. Tão simples quanto isso. A indústria musical não é a nossa era, a era do CD. Não. Isso foi um período ínfimo que está a acabar. Claro que as vozes da indústria se levantam, claro que as vozes de alguns músicos se levantam, afinal isto é o fim de uma era em que a industria usou e abusou dos consumidores. E fizeram muito bem. Eles tinham um produto e fizeram o seu preço, quem quiser que compre, quem não quiser que não compre, é a lei do mercado e não podemos nunca criticar isso, nem tão pouco podemos criticar este desespero notório da indústria e dos músicos (manipulados pela industria). Isto mexe-lhes no bolso, e ninguém gosta de perder rios de dinheiro certo, mas… As coisas são como são e não há nada a fazer. A Internet é um facto. Por isso é altura de a industria começar a mentalizar-se que a era do CD foi boa mas acabou, terão que voltar a ser aquilo que sempre foram, a musica enquanto industria basear-se nos concertos, a industria rodear a musica e trabalhar a musica enquanto forma quase ritualista, de presença física, sujeita ao factor humano, à magia de um concerto. Claro que os estúdios continuarão activos, mas agora de uma forma mais consentânea com o que foi a sua génese: o formato canção e não o formato disco, porque ao fim e ao cabo é isso que a musica é, canções, não discos. E a partilha na Internet levará os ouvintes ao concerto, e o ouvinte terá a possibilidade de ter uma variedade de ficheiros no seu computador tal, que o levará a ir apenas aos que mais aprecia. E os CD’s? Bem, os CD’s passarão a ser peças de colecção, vendidos apenas aos verdadeiros fãs, já agora no formato Super Áudio CD, talvez discos de edição limitada, preciosos, valiosos, meras pérolas de uma industria que se soube renovar e voltar ao ritmo de negócios que tinha à trinta anos, que soube aceitar que teve vinte anos em que ganhou mais do que conseguia gastar, uma industria que se movimenta nos bastidores, que entende a musica na sua magia e sacralidade, que sabe procurar os verdadeiros génios, que investe em músicos acima de qualquer suspeita, em vez de simplesmente fabricar produtos plásticos que não precisam da prova de fogo do palco porque o seu negocio não é o palco mas sim os vídeos que qualquer carinha laroca faz vender discos.
E isto será assim. As grandes editoras acabarão por cair caso não usem o seu poder para estarem na linha da frente. Acabou o seu monopólio, e nem vale a pena tentarem convencer-nos a comprar ficheiros de música. Ofereçam-nos, não como “oferta” mas como publicidade, que é no fundo o que o mp3 é. E querem uma prova? As vendas de discos têm caído a pique. É isso que nos enfiam todos os dias, certo? Sim, certo, mas só até certo ponto. O que caiu abruptamente foi a venda dos discos das grandes editoras, as pequenas e médias, trabalhando com números de vendas que chegam a ser ridículos estão cada vez a vender mais. Simplesmente porque a Internet está a tornar-se um media bastante mais eficaz de divulgação musical que as televisões ou as rádios. E ao contrario das televisões ou rádios, a rede não pode ser controlada, logo as pequenas editoras, baseadas no amor à musica, baseadas no sacrifício financeiro, baseadas na qualidade, estão a conseguir furar o cerco que o poder das grandes fizeram em torno da televisão e das rádios. Não vendem quantidades astronómicas é certo, mas vendem bastante mais do que venderiam caso a sua musica estivesse confinada ao silêncio. Logo este será o futuro da industria musical, sacrifício, o investimento baseado no risco, na certeza que o retorno apenas será compensador caso a musica, o principal factor desta equação, tenha qualidade, e os músicos ficarão confinados àquilo que sempre estiveram, aos concertos. Porque falando a verdade, naquele preço absurdo que pagamos por um CD as percentagens mais baixas são, e sempre foram, as atribuídas ao músico e ao preço do produto físico em si, o que é no mínimo ridículo.
E as grandes editoras? Aquelas que se queixam e criticam a partilha/roubo dos ficheiros? Aquelas que falando a verdade criticam no fundo apenas o facto de nós ouvirmos a musica antes de a comprar? Porque não tenhamos ilusões, o que eles nos pedem é que compremos musica sem ouvir, que paguemos um preço exorbitante sem saber o que compramos, como se o seu medo fosse percebermos antes de lhes darmos dinheiro que a musica não merece o nosso dinheiro. Essas grandes editoras, que investiram nos vídeos e nas carinhas larocas em vez da qualidade musical estão a ser desmascaradas, e estão a perceber que investindo no supérfluo, o supérfluo ficará confinado a isso mesmo, à porcaria de um ficheiro sem a mínima qualidade, perdido entre centenas ou milhares de outros ficheiros iguais num computador. Um ficheiro facilmente enviado para a reciclagem ao fim de pouco tempo, sem deixar saudades ou qualquer outro sentimento no ouvinte, mero lixo informático e sonoro que nos querem convencer que temos que pagar por ele. E os outros ficheiros? A música que nos toca, nos diz algo, nos faz sonhar, chorar, rir, saltar, amar? Essa ficará gravada na nossa memoria, essa nós enviaremos a amigos, conhecidos, falaremos dela… E eventualmente, quando o ficheiro estiver espalhado pela rede mundial, haverá sempre alguém a quem aquele som lhe disse algo que só ele poderá explicar, que sairá de casa, irá à loja mais próxima comprar, encomendar ou perguntar pelo disco. Porque haverá sempre música que temos que ouvir em toda a sua glória, com a qualidade de um CD original, sem aquele som abafado, triste e pobre de um reles ficheiro mp3. E é esta música que fica a ganhar com a partilha de música na Internet. Por isso eu sou totalmente a favor, simplesmente porque sou a favor da música.
(apesar desta análise a esta questão parecer bastante simples da minha parte, o texto já está demasiado grande. Como tal reservo para uma segunda parte uma análise às questões que possam parecer mais complexas.)