março 21, 2007

Admirável Mundo Novo (2a Parte)

Na entrada anterior defendi a partilha de música na Internet. Para quem é contra este sistema a minha opinião pode parecer demasiado simplista, e até certo ponto dou-lhes razão. Há obviamente questões mais complexas que o imbecil “As editoras já ganharam o que tinham a ganhar.”, que â partida parece ser o que defendi.
Mas mantenho o que disse, e num exercício de futurologia vou tentar descortinar o “admirável mundo novo” da indústria musical do futuro.
Com a passagem dos factores “concerto” e “canção” para primeiro plano, iremos no futuro perder o privilégio de ouvir um bom disco? Não. Não iremos. O que se perderá é a responsabilidade da gravação de um disco ser entregue a qualquer banda ou músico. Por outras palavras. Dentro da provável concepção da indústria musical no futuro, o factor “disco” perderá a importância que tem hoje em dia. Se isso é negativo ou positivo já é relativo. Eu pessoalmente acho positivo. Honestamente acho que a maioria dos discos existentes no mercado não têm capacidade para se imporem como tal. A maioria não passam de meras colecções de canções, sendo a maioria delas meramente para ocupar espaço e fazer número. Com o advento do mp3, as canções respirariam por elas, o que no fundo é o que se passa agora. Acho que é por demais evidente que no universo musical, os discos são muitas vezes vendidos por uma ou duas canções e não pelo conjunto do disco. Logo, deste ponto de vista, a mudança passaria a ser positiva, tanto para o publico, que apenas teria acesso às canções que realmente interessam, como inclusivamente para os músicos, que não estariam obrigados a fazer canções apenas porque precisam de encher um disco, com resultados geralmente bastante pobres.
Mas… e os discos que realmente valem a pena? Esses continuarão a ser gravados. Qualquer musico que tenha uma ideia para um disco, que ache que vale a pena gravar esse disco terá sempre essa possibilidade, e irá em frente. É possível que nesse futuro próximo a industria não facilite essa opção aos músicos em início de carreira, e será impensável entregar essa tarefa dispendiosa a qualquer músico que ache que tem capacidade para tal. Mas quer seja por teimosia, num esforço solitário, com condições mais em conta, quer seja o músico que já possui o estatuto para exigir isso á industria, os discos que valem a pena continuarão a ser gravados. Por esta ordem de ideias, todos os músicos que apenas trabalham em estúdio, os criadores mais que intérpretes, que não conseguem encarar uma plateia e preferem o ambiente criativo do estúdio, continuarão a ter o seu lugar na indústria musical. Eventualmente com menor retorno económico, mas essa é uma opção pessoal de cada músico, e a selecção natural se encarregará de fornecer ou não a esses músicos a estabilidade financeira necessária. Pode não ser sempre justo, decerto que grandes mentes ficarão pelo caminho, mas o mundo é e sempre foi duro, e a justiça pouco ou nenhum peso teve na história da Humanidade.
Na tentativa das editoras se adaptarem ás novas tecnologias vendendo ficheiros na Internet, não será esta forma já por si justa? Por outras palavras, se nós ouvintes estamos a consumir o trabalho de alguém, não será o preço irrisório pago pelos ficheiros suficiente para devolver alguma justiça aos criadores e assim serem pagos pelo seu trabalho? Porquê a nossa necessidade enquanto ouvintes de exigir o download ser grátis? Não estaremos a ser egoístas? Pela parte que me toca confesso que sim. Caso exista uma editora que me garanta um mínimo de qualidade e quantidade de livre vontade pagaria para sacar música nova. Mas aqui há um pequeno pormenor. Se é verdade que de livre vontade qualquer pessoa compra um livro sem o ler, ou vai a um cinema ver um filme desconhecido, ou ver uma peça de teatro nunca vista, e deste modo estar a pagar por um produto que não conhece o conteúdo, também é verdade que ninguém o faz indiscriminadamente. Como tal, novamente aqui entra a lei do mercado, as editoras ou plataformas que ofereçam a garantia de uma boa relação qualidade/quantidade/preço poderão enveredar por esse caminho, todas as outras terão que publicitar o seu produto para poderem atingir esse estatuto, e a melhor forma de o fazer é com a disponibilização gratuita dos ficheiros. Esta é uma simples questão de selecção natural, algumas editoras serão bem sucedidas, outras não. É tudo uma questão de sorte, trabalho e tempo. Eventualmente serão criadas plataformas de agregação, portais em que estruturas de menor dimensão se associarão a outras igualmente reduzidas para juntas conseguirem competir com estruturas de maiores dimensões. É tudo uma questão de tempo, de visão, paciência e adaptação à evolução do mercado. Uma questão de negócio. Uma epopeia de politicas empresariais que já começou, e eventualmente culminará com a aceitação da industria actual de que a Internet é um facto, é a nova plataforma de divulgação, e com o tempo acabarão por aceitar que é na rede mundial que se começarão a desenhar os novos mitos, heróis e ícones da musica mundial.
Mas repito, continuo a acreditar que esta luta das editoras contra a partilha gratuita de ficheiros é a forma errada de lidar com esta questão. Talvez ingenuamente acredito que a coabitação das duas vertentes não é impossível. Então que vantagens existem em pagar por um serviço se o mesmo pode ser obtido gratuitamente, sem perda de qualidade no produto em si? Essa é a questão que as plataformas pagas têm que resolver. Em primeiro lugar a variedade. Um serviço pago terá que oferecer uma maior amplitude de ficheiros, não se deixar levar pela ditadura da maioria que é o que acontece nos programas de partilha existentes, estamos limitados ao que é mais popular, uma plataforma paga terá que oferecer aos seus assinantes a garantia de ter uma escolha livre e ampla, quanto mais melhor, porque verdade seja dita, se é verdade que os ficheiros mais populares acabarão por aparecer nas plataformas gratuitas, possibilitando a muitos o que poucos pagaram, também é verdade que os ficheiros menos populares dificilmente lá terão lugar. Quem quiser essa maior escolha pagará, quem não quiser terá gratuitamente aquilo que lhe derem. A batalha actual de combater esta forma de partilha gratuita é não só inglória como prejudicial. O esforço dispendido nessa tarefa seria mais bem empregue e rentável a longo prazo, se investissem numa maior variedade nos serviços pagos. Novamente aqui entra a selecção natural, à medida que o tempo avança cada vez mais pessoas preferirão pagar por um serviço com melhor qualidade que o serviço gratuito, e as plataformas com maior credibilidade serão mais bem sucedidas. As outras ficarão pelo caminho. E não é combatendo a partilha gratuita que fazem com que os consumidores optem por pagar, antes pelo contrário, serão as plataformas gratuitas que farão gratuitamente a publicidade necessária ás plataformas pagas. Em vez de serem o inimigo que procuram combater, serão antes o aliado necessário.
E este é o factor que a industria ainda não entendeu.
A partilha de música na Internet não é prejudicial a ninguém. Será, isso sim, se não se souberem adaptar, e essa adaptação passa não pelo combate mas sim pelo aproveitamento da rede. Ao disseminar, mesmo que gratuitamente, pela rede um ficheiro qualquer um músico não estará a ser mutilado nos seus direitos, antes está a mostrar a um vasto leque de ouvintes a sua arte, com o tempo, com paciência, terá o retorno financeiro merecido. Quanto mais gente ouvir uma musica, maior a possibilidade de essa musica tocar alguém, e esse alguém irá eventualmente acabar por devolver monetariamente esse privilégio de ouvir uma boa música, quer seja com a compra de merchandising, de um CD, de um bilhete de um concerto ou com a subscrição de um serviço de download pago onde procurará algo semelhante.
A indústria terá que se saber adaptar, investindo em músicos esperando o retorno financeiro, imediato ou a longo prazo, terá que ter visão, terá que procurar qualidade e não fabricar produtos.
Neste futuro próximo já se adivinha o retorno de uma categoria musical que estava desaparecida da indústria musical massificada. Falo dos concertos. E quando digo concertos não falo apenas do simples acto de tocar ao vivo, falo de obras pensadas, compostas e estruturadas no sentido de serem tocadas ao vivo. Aquela que hoje em dia é designada “música clássica” foi no seu tempo, em grande parte, composta neste sentido. Originalmente, a ideia de “disco”, foi introduzida na indústria musical pelos Beatles na tentativa de recriar para a música popular do séc. XX esse conceito que durante alguns séculos esteve confinado à música erudita. Mas esse conceito foi pervertido, e com o advento do CD criou-se na indústria essa ideia errada de que qualquer disco deveria ter um conceito ou uma linha condutora. Mas é por demais obvio que a música popular na sua esmagadora maioria vive de canções, como sempre viveu, e esse foi um conceito que o CD se encarregou de desvirtuar nas últimas décadas. No futuro próximo, a história se encarregará de devolver à música o respeito que ela merece, recolocando nos seus devidos lugares o peso e importância dos conceitos de canção, disco, concerto, festa e actuação. (Talvez até criando para a língua portuguesa, uma palavra que distinga os conceitos de concerto enquanto actuação num todo, e concerto como um simples alinhamento de canções.) E a industria já possui um formato que vai devolver aos concertos o seu lugar. Falo do DVD.
Historicamente o CD foi um engano. A ideia era desenvolver um suporte para filmes, mas a meio da pesquisa descobriram a possibilidade para a leitura de música. Partindo de dois princípios práticos desenvolveu-se a tecnologia para a musica, criando estas décadas de lucros abissais para a industria. Um dos princípios foi baseado na 9ª Sinfonia de Bethoven, que tem uma duração de 74 minutos, e desenvolveram o novo suporte com essa duração total. O outro principio foi desenvolver o som até ao limiar do audível para o ouvido humano, e foi essa a sua grave falha. O som é vibrações do ar, o ouvido humano capta sonoramente essas vibrações até ao limiar dos 20 KHz, o vinil consegue recriar essas vibrações até aos 100 KHz. Acima dos 20 KHz o ouvido humano não consegue distinguir o som, mas as vibrações interagem com o corpo, fazem-no vibrar, a musica ainda existe nesse intervalo, não ouvida mas sentida, e esse é um pormenor que na altura não se deu atenção, mas que recentemente se chegou á conclusão que afinal é um pormenor demasiado importante para ser menosprezado.
Com o desenvolvimento do CD até ao formato DVD, a ideia original da pesquisa, o CD pode enfim ser esquecido, e finalmente a industria já possui o suporte ideal para o desenvolvimento do conceito de concerto. Os discos continuarão a existir, preferencialmente em Super Áudio CD (CD’s com reprodução de som até aos 100 KHz, tal e qual o vinil) mas agora os discos poderão também ser pensados já como um todo, como um concerto, não apenas o factor musical mas também o factor visual, e nós, consumidores, já temos a tecnologia massificada de poder desfrutar desse produto em casa. Não há melhor exemplo para confirmar esta minha ideia do que o facto de esta ser uma ideia já em desenvolvimento, a falta dessa massificação do conceito concerto era tão gritante que a industria adoptou imediatamente a ideia. Infelizmente já existia uma discrepância acentuada entre o conceito de disco e o conceito de concerto, e ainda demorará um pouco a estes conceitos estarem devidamente formatados e encaixados no seu devido lugar, não obstante já existirem alguns casos bem sucedidos daquilo que será a norma.
Por tudo isto acredito que o futuro da música não está ameaçado como choram presentemente alguns agentes musicais. Antes pelo contrário. Acredito piamente que agora é que a Música voltará a ser aquilo que sempre foi: uma arte emocional, indescritível, a única arte capaz de tocar o ser humano a um nível quase visceral, misterioso. Longe de modas, de propagandas, de fabricação de falsos ídolos, através de factores exteriores àquilo que a Música realmente é e sempre foi – um abraçar do Espírito. E os abraços não se pagam, mas quem nos abraça com aquela intensidade que as palavras não descrevem… damos-lhe tudo o que temos. E por mais razões que nos dêem que a “pirataria” é crime e está a matar a musica… Pura e simplesmente não acredito, e é minha profunda convicção que agora é que a Musica irá voltar aquilo que sempre foi, e respondendo á pergunta inicial: Partilha ou Roubo? Partilha. Partilha no mais puro sentido da palavra, partilha da emoção, dos sentimentos, da majestade, da beleza, do mais puro e sublime que existe na Musica. E para todos os músicos e agentes da indústria que não concordam comigo dou-vos um conselho muito simples: façam e invistam em música de jeito, irão ver que quanto mais for partilhada (que é uma palavra lindíssima e que consegue descrever o sentido mais profundo, misterioso e místico da Música) mais venderá.
Por fim. O título desta segunda parte da crónica não é inocente. No “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, a globalização é conseguida à custa da individualidade. Todas as expressões artísticas são formatadas e estéreis, e qualquer forma de individualidade proibida, a bem da sociedade perfeita. Qualquer análise superficial da indústria musical nas últimas décadas não pode deixar de encontrar um paralelo entre essa sociedade “perfeita” e a nossa sociedade. Não será então a Internet, enquanto forma global de comunicação e principalmente, uma ferramenta em que o individuo, mesmo no seu conceito global, maior poder tem enquanto individuo, a ferramenta ideal para evitar essa queda, que estava a ser notória, nesse tal Admirável Mundo Novo? A Música é neste momento apenas o seu lado mais visível, mas isso única e exclusivamente pelo simples facto porque comecei este extenso texto. Porque a Musica é sem duvida a Arte mais Universal que existe, a expressão artística por excelência do próprio sumo da espécie Humana. Não a queiram prender. Deixem-na ser livre. Prender a Música é o mesmo que prender a Humanidade.

Publicado por almahperditae em março 21, 2007 10:48 PM | TrackBack
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