No dia em que ouvi este disco pela primeira vez a minha vida mudou. Na altura não devo ter dado por isso, na altura ainda estava demasiado incrédulo, demasiado excitado e confuso para o perceber. Agora, uma década passada, é claro como água que este disco me mudou a vida como nunca nenhum outro mudou. À conta dele deixei-me de teimosias bacocas e perdi a ideia de que o metal eram apenas meia dúzia de putos a fazer muito barulho porque não sabiam tocar, devido a este disco dei ao metal a oportunidade de se revelar aos meus ouvidos, sem preconceitos nenhuns, e desde esse dia tentei deixar de ter preconceitos musicais. Passada uma década, continuo a tentar ouvir tudo de mente aberta, apesar de nunca mais ter sentido o que senti com este disco. Sim, para mim este é mesmo o melhor disco de todos os tempos, e confesso que à muito tempo que tento escrever algo sobre ele, mas nem sei como por em palavras o que eu sinto ao ouvir este disco.
Quando ouvi este disco pela primeira vez a minha ideia do metal era a ideia que toda a gente que odeia metal tem, ou seja, era uma merda. O que eu tinha ouvido de metal era o que toda a gente que odeia metal ouviu, ou seja, nada! Confesso até que o ouvi cheio de preconceitos, e preparado para ouvir apenas uma vez, a passar as músicas para a frente, e para dizer depois que a minha primeira ideia estava certa, era uma grande merda, e se mo tentavam impingir à meses, se me falavam deste disco como uma obra monumental e genial isso era apenas porque eram mentes influenciáveis e bastou um digipack em forma de caixão para as suas mentes impressionáveis delirarem. Para mim, nessa altura, o metal não passava de meia duzia de putos que não sabiam nada de música e por isso faziam muito barulho e usavam e abusavam de imagens chocantes, feitas de sangue, violência e negro, apenas para dar nas vistas, para que um bando de adolescentes confusos e com ligeiros problemas psicológicos e emocionais se deixassem impressionar. Esta era a minha ideia, e acredito que esta ainda é a ideia que muita gente tem do metal. Por isso percebo muito bem quem odeia o metal, por isso também sei que bastava ouvir, porque acho que há no vasto universo do metal algo que consiga quebrar esse preconceito seja a quem for. Não há ninguém que odeie mais este som do que eu odiava à uma década atrás. E a mim houve um disco que acabou com esse preconceito: Dusk... And Her Embrace! O que poderei dizer deste disco? Genial? Claro, no minimo. Um dos melhores de sempre? Para mim é mesmo o melhor. Imaginem alguem que se prepara para ouvir um disco com a mente completamente preparada para odiar. Sentei-me no sofá em frente à aparelhagem, meti o disco, coloquei os auscultadores e preparei-me para ouvir lendo as letras (que é como ouço sempre um novo disco). E o que se passou nos 53 minutos seguintes foi algo de indescritível, imediatamente a introdução orquestral e grandiosa me pegou pelos colarinhos e me colocou no espaço sideral, nem quando a introdução se desvaneceu no som de um fogo a arder, como se labaredas do próprio Inferno se tratassem, eu acordei do encantamento, quando a guitarra começou a gritar num lick diabólico eu ainda estava completamente hipnotizado, e nem quando a voz começou a violar-me com o seu grunhido vindo das mais profundas entranhas infernais eu acordei do meu fascínio... Pela primeira vez na minha vida eu conseguia sentir e compreender o lado artístico que emanava destes “miúdos sem talento que usam imagens imbecis para dar nas vistas”. Alias, se alguma coisa eu conseguia pensar durante esta quase hora de duração era como raio é que um grupo de putos, que se movimentavam num universo que eu via como completamente amador e sem talento, sem nenhuns meios à disposição, conseguiam criar algo tão fenomenal. O som não tinha nada a ver com gravações feitas em cima do joelho, o som era claramente feito por gente que sabia muito bem o que fazia, as próprias composições, fora a parte de inspiração que era óbvia, tinham um conhecimento técnico e musical por detrás que eu nunca na vida tinha ouvido fora do universo erudito. Na altura parti do principio que tinha sido um daqueles acasos inexplicáveis, um grupo de putos imbecis tinha feito um disco genial sem a minima ideia do que tinham feito, mais tarde descobri que esse universo imbecil era na realidade o universo mais rico artística e musicalmente de todos os nichos que existem, um nicho obscuro que se alimenta directamente no universo erudito, e se continua a ser tão menosprezado é por puro preconceito dos ouvintes, e porque os músicos sabem perfeitamente que há coisas que nem toda a gente tem capacidade intelectual para entender, por isso nem sequer tentam sair da sombra onde tão confortavelmente criam a sua arte.
Se eu recomendo este disco a toda a gente? Claro. Mesmo quem detesta metal, mas também é verdade que este não é um disco fácil. Alias, para ser sincero, nem sei como é que foi este disco que me abriu os horizontes, mesmo que emane uma beleza única e especial, a verdade é que isto é o estilo de metal mais brutal e violento jamais inventado, e a qualidade musical deste disco está muitíssimo alem do que um normal apreciador de musica está habituado. Por mais estilos e nichos que inventem a verdade é que a musica é toda igual, e basicamente toda a musica popular se movimenta no mesmo plano: tempos simples, poucos compassos, ritmos dançáveis e melodias cantaroláveis. Uns estilos mais acessíveis, outros mais escondidos, na realidade toda a musica popular se rege pelas mesmas regras, seja a chamada pop ou seja o black-metal mais obscuro. Mas este disco é completamente diferente, mais próximo da musica erudita do que propriamente da musica popular, por isso, como se já não bastasse a brutalidade sonora e os altos níveis de distorção a massacrar pobres almas pouco habituadas a estes níveis de devastação, ainda tem o ónus de não ser um disco propriamente fácil de seguir para os padrões a que estamos habituados. Claro que cada segmento consegue ter a sua beleza única e especial, e quando se passa para outro segmento qualquer, essa passagem nunca é forçada, nunca soa mal. São 53 minutos em que a musica nos pega ao primeiro segundo e sem refrões, sem muitas repetições de riffs (ás vezes, raramente, repetem-se riffs) a música avança sempre num crescendo, numa montanha russa de sensações, embalando os sentidos, hipnotizando o ouvinte com a sua beleza trágica, mórbida, fascinante, sem nunca haver um momento para descansar, para respirar fundo, porque mesmo as partes mais calmas (e há algumas) nos arrebatam com tamanha beleza, e quando enfim o disco se desvanece no meio de uma tempestade, num ultimo grito de guitarra, respirasse fundo e perguntasse “Mas o que é isto?”.
Isto é só uma pequena obra-prima. Um devaneio inspirado e inspirador, uma viagem alucinante pelo lado mais negro do explendor humano, um clássico que o tempo encarregará de colocar ao lado das maiores obras criativas da história da Humanidade, um tratado musical e artístico que talvez ainda demore uns séculos a ser-lhe dado o devido valor, uma incursão única pelo lado mais grandioso e belo do lado negro do Ser Humano. Isto, é (no mínimo!!!) o ponto mais alto da história da música no século XX, desde o primeiro momento em que o blues nasceu era já para aqui que caminhava. Quando Dylan pegou numa guitarra pela primeira vez era para aqui que abria caminho. Quando os Beatles pegaram numa guitarra eléctrica era este o disco prometido. Toda e qualquer corrente musical explorada, todo o equipamento inventado, todas as misturas experimentadas apenas tinham um único objectivo: expandir a música popular até ao ponto de conseguir atingir o cume, o auge do explendor musical. Este é esse auge. O ponto exacto em que Deus e o Diabo se unem enfim no Paraíso prometido. E durante 53 minutos sentimos essa união sem nunca o conseguir meter por palavras, porque esta é uma experiencia visceral, mais intensa e profunda do que aquilo que o ser humano é capaz de racionalizar, e ao se fazer enfim silêncio, olhamos em volta a tentar perceber o que raio se passou...
Demora um bocado a perceber o que raio se passou. Demora um bocado a descer à terra e encarar a realidade. Talvez... talvez quando enfim perceberem o que raio se passou cheguem à mesma conclusão que eu, este é de longe o melhor disco de sempre. Mas repito, este não é um disco fácil para quem não está habituado a este género musical, nem para quem não está habituado a ouvir um disco no seu todo, e para quem os discos não passam de colecções de canções. É um disco complexo, difícil e intrincado. É um disco em que todos os instrumentos têm uma importância vital, em que cada pormenor é importante, e muitas vezes podem passar coisas ao lado pelo simples facto de que a nossa atenção está embrenhada numa outra qualquer passagem instrumental.
Para todos aqueles que não gostam de metal o mais provável é nem conseguirem entender nada, vão ficar com a ideia que é tudo um enorme ruido entrecortado ocasionalmente por uma passagem clássica. Apenas perceberão gritos e barulhos demolidores, por isso, desde já aviso que para ouvir por ouvir nem vale a pena. Este disco tem que contar com o vosso esforço, atenção, e já agora, um sistema de som no mínimo razoável... Mas podem sempre tentar, porque acreditem que a recompensa ultrapassa tudo aquilo que possam imaginar, e quem sabe, talvez vos possa mudar a vida... tal como mudou a minha.
Nota:10/10
Alinhamento:
1. Humana Inspired to Nightmare
2. Heaven Torn Asunder
3. Funeral in Carpathia
4. A Gothic Romance (Red Roses for the Devil's Whore)
5. Malice Through the Looking Glass
6. Dusk and Her Embrace
7. The Graveyard by Moonlight
8. Beauty Slept in Sodom
9. Haunted Shores
Site Oficial: Cradle Of Filth
Publicado por almahperditae em julho 26, 2007 05:08 PM | TrackBackUm bom trabalho, sem dúvida, embora eu não seja fã da banda.
Afixado por: KLATUU o embuçado em julho 28, 2007 06:37 PMNeste momento quem é? Mas aposto que deves ser mais coisa menos coisa da minha faixa etária, late 20's, e mesmo que tenhamos começado quase todos por aqui, a verdade é que depois disso os horizontes alargaram-se bastante e os Cradle Of Filth já são a "boys band do black-metal". Mesmo estando em parte completamente de acordo com isso, a verdade verdadinha é que... Porra... Boys band ou não, palhaços ou não, a verdade é que eles são muita bons... goste-se ou não. Estejam eles muito piores do que eram ou não... Quando comecei a ouvir metal mais profundamente desliguei-me completamente (ou quase) deles, mas um dia saquei um video da musica Dusk... And Her Embrace e enquanto ouvia só pensava "Porra... Ok que há bandas melhores que eles, mas que eles são mesmo muita bons isso é indesmentivel." Mas admito que se ainda os tenho na terceira posição nas minhas bandas favoritas de sempre isso apenas se deve a este disco, porque neste momento já não são nem de perto nem de longe a banda que eu mais anseio por ouvir musica nova. Esse lugar tem que ser entregue aos Anathema neste momento.
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