agosto 27, 2007

Jorge Palma - Voo Nocturno

Quanto vale um disco de originais de Jorge Palma? Honestamente... Pouco ou nada. Jorge Palma é um artista de canções, canções essas compiladas ao longo dos anos, canções que nos foram tocando através dos anos e escolher um único disco de originais é uma tarefa impossível, e provavelmente este é um artista que poderia muito bem fazer a sua carreira única e exclusivamente na Internet, de certeza que o boca a boca e a partilha faria muito mais por ele do que a industria discográfica e o ritual de editar discos de originais num ritmo relativamente constante. E talvez seja bom recordar que durante duas décadas Jorge Palma não editou nenhum disco de originais, e foi nesse preciso espaço de tempo que através dos concertos, através do boca a boca, uma geração inteira de portugueses descobriu esse génio imenso que a industria pura e simplesmente deixou ao abandono, não conseguindo dar-lhe o valor que ele merecia. Mas Jorge Palma sobreviveu, e armado única e exclusivamente do seu talento imenso ocupou o seu lugar na musica portuguesa como um dos grandes nomes da musica portuguesa, como um dos grandes compositores nacionais de sempre, com o estatuto que melhor lhe assenta, o do poeta maldito, o do artista de culto, marginal e solitário.
Mas voltando à pergunta inicial: quanto vale um disco de Jorge Palma? Ou sendo mais especifico, quanto vale este Voo Nocturno? Pois deixem-me ser sincero, pouco ou nada. Pouco para todos os fãs de Jorge Palma, nada para todos os outros. Todos os “palmaniacos” decerto já o compraram, pelo simples facto de que é um novo disco de Jorge Palma, todos os outros não compraram, nem irão comprar. Jorge Palma é bastante mais que a edição de discos, e com a excepção dessa genial espécie de compilação que é o “Só”, todos os outros são discos pura e simplesmente supérfulos individualmente. Ou se têm todos os discos de Jorge Palma ou não se tem nenhum, tão simples quanto isso. Porque a sua genialidade, o seu imenso valor é a sua carreira no seu todo, são as canções que nos acompanham através dos anos, é o ritual de um concerto com o mito, bêbado ou sóbrio, tocando bem ou mal, caindo do palco ou dando um concerto magistral, não importa. Jorge Palma é a musica na sua máxima pureza e podridão, Jorge Palma é vida e sangue, lágrimas e sorrisos, é as frases que nos tocam no mais fundo da alma, as frases que nos acompanham através dos anos.
Mas então, o que nos dá este disco de novo? Pessoalmente, e qualquer análise a Jorge Palma é sempre pessoal, este disco dá-me assim de repente três canções novas para adicionar ás minhas favoritas do mito, a saber: Encosta-te A Mim; Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez) e Gaivota Dos Alteirinhos. E como tal, quero focar-me por aí principalmente.
À uns meses atrás (sinceramente não me lembro exactamente do dia nem do mês) tive novamente o privilégio de assistir a um concerto do mito, concerto magistral por sinal, mas que honestamente não começou da melhor maneira, Jorge Palma estava visivelmente embriagado e nas primeiras músicas ainda sem aquecimento (chegou atrasado, e quem acha que os aquecimentos são exclusivos do desporto está enganado) a coisa não correu da melhor maneira, eu confesso que achei que pela primeira vez ia assistir a um daqueles concertos míticos em que o génio não acerta uma e eventualmente o concerto acaba quando o mito desaba do palco com todo o peso da sua grandiosidade artística. Mas lá para a terceira música, já com os dedos e a voz mais coordenados, as notas começaram a obedecer e Jorge Palma anunciou uma das musicas novas. Foi a primeira vez que ouvi esta Encosta-te A Mim. Na altura a minha mente divagou, completamente enebriado pela beleza dessa canção, cada palavras que o mito atirava para o microfone era imediatamente assimilada por mim e tive um daqueles raros momentos em que tudo faz sentido, tudo encaixa, como se adivinhasse o que vinha a seguir mas o que vinha era sempre mais perfeito do que eu poderia imaginar, e desde esse momento, não sei bem porque, essa musica tornou-se imediatamente parte da minha relação com a música do Jorge Palma, Quando fui à livraria onde costumo ir, e a simpática dona me falou do novo disco do Jorge Palma eu nem sabia que o disco tinha sido editado, mas olhei para a contra capa e ao ver o nome da primeira música imediatamente disse que esta era uma das melhores músicas jamais escritas por Jorge Palma e ao chegar a casa ouvi e reouvi vezes sem conta esta faixa, recriando mentalmente o que senti ao ouvir pela primeira vez a canção. Talvez com o tempo esta se torne uma daquelas canções que nos enfeitiçam à primeira audição mas que com o tempo se gastam até se tornarem apenas uma melodia engraçada, não sei, é provável, mas qualquer coisa me diz que talvez esta música é uma daquelas raras canções que nos pegam pelas vísceras à primeira audição e nunca mais nos largam enquanto o nosso coração não parar de bombar sangue para o cérebro. Não sei de que tipo é esta canção, só o tempo o dirá, mas agora sei que rapidamente esta canção passou para o primeiro lugar no top das mais ouvidas no Winamp do meu computador, descontando claro o que já rodou na sua versão original, enquanto não decido poupar o original e deposita-lo na sua respectiva prateleira.
Outra canção que me agarrou à primeira audição (ou segunda se calhar... Nesse tal concerto é provavél que esta tenha sido uma das introduzidas mas não me recordo.) foi a magistral Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez), e sendo uma análise bastante pessoal tenho que confessar aqui um pequeno pormenor. Ao ouvir a música pela primeira vez, fiquei imediatamente hipnotizado pela cadencia repetitiva da canção, num crescendo de intensidade que me deixou imediatamente espectante pelo final, pela explosão prometida. Ora, sendo eu, à quase uma década, consumidor assíduo de Metal, confesso que a musica me pedia um grito intenso e uma explosão de guitarra com uma distorção ultra pesada, mas como é óbvio, isso não se coaduna com a cultura musical de Jorge Palma, e confesso que estava preparado para ficar desiludido com o resultado final, com a explosão prometida a ficar aquém daquilo a que estou habituado a ouvir. Mas... Um génio é um génio, e saber o que se faz e como se faz, faz toda a diferença. E se ainda não foi desta que Jorge Palma enveredou pelo caminho do metal, pelo menos voltou a trilhar o caminho do rock, algo que não lhe é estranho, e além de ganhar mais uma excelente canção para a sua colecção voltou a provar aquela velha máxima de que o original é sempre melhor que a imitação, sem o mínimo desprimor (antes pelo contrário) para os Toranja.
Gaivota dos Alteirinhos tem um travo a por do sol, olhando o Tejo numa qualquer esplanada com o vento dolente a enfeitar a paisagem em redor, na doce dolencia de estar apaixonado e o mundo parecer belo... E Jorge Palma conseguiu criar um som perfeito para esse ambiente! É impossivel meter por palavras a beleza desta melodia, o encantamento do arranjo... Para ouvir, de preferência no ambiente descrito acompanhado de uma boa bebida fresca num qualquer dia de calor...
Para terminar, uma pequena duvida. Apesar de fã incondicional, e como tal o meu julgamento é sempre subjectivo, ao ouvir este disco uma duvida assaltou-me repetidas vezes. É certo que Jorge Palma é um músico magistral, e como tal todo o disco tem letras fantasticas, canções apenas ao alcance de alguns (poucos) artistas, e Jorge Palma tem o talento de vestir as suas canções com uma qualidade musical de que poucos autores se podem orgulhar. Mas... por vezes uma dúvida se instalava, é impressão minha ou a voz de Jorge Palma por vezes fica aquém do que ele já foi capaz? Sem a mínima importância para o resultado final, um disco que se ouve com um deleite raro neste país à beira-mar plantado, por um artista que apesar de nos últimos anos ter tomado para si parte do valor merecido, infelizmente Jorge Palma continua a ser um artista que só receberá o reconhecimento merecido após a morte... O maior génio da música pop nacional de sempre? Não sei se será... Mas pessoalmente, no pódio dos três grandes mestres nacionais, Jorge Palma é apesar de tudo aquele que mais me toca na alma, e se José Cid será um nome que sempre fará parte da história da música nacional, se Rui Veloso é o compositor que mais clássicos tem na música nacional, Jorge Palma talvez seja aquele cuja música é mais visceral, mais verdadeira, e se mais nada consigo dizer é porque este é um dos artistas que à mais tempo me acompanha na minha vida, e falar de Jorge Palma é como falar da minha vida... E talvez esse seja o defeito desde disco, ainda está demasiado fresco, ainda não faz parte da nossa memória pessoal, ainda não aprendemos a tocar ou cantar nenhuma música para a dedicar a alguém especial, ainda não houve tempo para estar a ouvir uma qualquer música com os olhos salgados e o coração desfeito por alguma razão. E isso é o maior elogio que lhe posso fazer, Jorge Palma está demasiado dentro de mim, e este disco é apenas mais um disco do mito. Mesmo assim... Mais um. Mais um que espera o seu lugar na minha memória. Mais um apenas... Mas que raio, mais um do Jorge Palma vale mais que tantas obras-primas de tantos artistas...


Nota: 8/10

Alinhamento:
1. Encosta-te a Mim
2. Voo Nocturno
3. Rosa Branca
4. O Centro Comercia fechou
5. Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez)
6. Abrir O Sinal
7. Gaivota Dos Alteirinhos
8. Casa Do Capitão
9. Vermelho Redundante
10. Quarteto Da Corda
11. Finalmente A Sós
12. A Velhice

Site Oficial: Jorge Palma

Publicado por almahperditae em agosto 27, 2007 11:05 AM | TrackBack
Comentários

Olá
Concordo com muito do que dizes e quero também dar-te os parabens pela forma "artistica" como vais descrevendo as tuas opiniões.No entanto,eu também sou suspeito por ser fã incondicional do Palma,e talvez por isso, não tenho duvidas de que se trata do "maior génio da musica pop nacional" e que o "voo nocturno" não se resume a 3 musicas... para mim, são todas fabulosas. A voz do "homem" pode já não ser o que era mas continua muito melodiosa."Encosta-te a mim" é um tema para ouvir pela vida fora...Enfim... saudações palmaniacas.

Afixado por: Basilio Matos em setembro 5, 2007 06:26 PM

Eu avho que não lhe dou esse estatuto. E passo a explicar pq. Sinceramente acho mesmo que o maior génio da música pop nacional (e qd digo pop é só para não incluir o Carlos Paredes, esse está à parte) é o José Cid. Ok, podem rir-se à vontade, mas o homem é um génio, cromo ou não, a verdade é que o homem tem músicas que desculpem-me o exagero, mas tem músicas que conseguem o impossivel, ombrear com os Pink Floyd. Eu acho mesmo que o homem está (esteve) mesmo muito muito além... Mas... Dp há o Rui Veloso e Jorge Palma, que me dizem bastante mais, que são os músicos que me "ensinaram" a ouvir música, pq são os dois nomes que ouço desde que me lembro de mim, e segundo me dizem, já os ouvia até antes de isso lol E nestes dois... O Rui tem aquelas músicas maravilhosas, com akelas letras fantásticas do Carlos Tê, tem o melhor disco portugues de sempre... faz-me voar e sonhar como poucos músicos conseguem... O JP tem o ónus de ser um artista mais sólido, é mesmo compositor, não entrega as letras a outros, mais completo, e ao contrário do Rui Veloso a música dele é visceral, emotiva, atinge-me a alma, não o sonho... São duas formas de ouvir música diferentes, e não consigo escolher entre um e outro pq ambos são demasiado intensos para mim, cada um à sua maneira... Agora... Há uma diferença entre estes três nomes, o Cid provavelmente nunca verá reconhecido o valor dele, o Rui Veloso já tem o estatuto dele, em alguns casos provavelmente até um bocado exagerado, noutros bastante aquém do merecido, mas o tempo se encarregará de lhe dar o valor que ele já tem... O Palma... esse, mesmo que agora até esteja melhor que à uns anos (felizmente a minha geração foi um bocado mais inteligente que a anterior, embora o tenham descoberto bastante tarde...) o JP só verá reconhecido o valor dele dp de morrer... Infelizmente é assim. Neste momento só nós, os fãs é k sabemos o valor dele na música portuguesa, os outros não...

Afixado por: Almah Perditae em setembro 6, 2007 02:40 AM

Concordo em muito com as opinioes descritas, no entanto, o mitico Palma, para mim, sera reconhecido se eventialmente durar mais dez anos, mas sera somente pelo publico musicalmente activo atento, e exigente, porque o que aconteceu com jose cid, e Rui Veloso, foi que ate o avozinho os cantava, e a menina de tenra idade, uma vez que teriam letras giras... e melodias ritmicas simplisticas em algumas musicas...
Jorge Palma nao e dos unicos musicos a nao ter reconhecimento, existem vários outros, desconhecidos ou nao..., mas agora vejam quantos miudos de 18 anos ouvem este genero de musica ou apreciam ouvir musica por ser verdadeira... quantos...
Se lerem atentamente o site e a historia do Palma, podem ver que ele provavelmente nao editou devido a editora querer obrigar a mudar algumas musicas e estilo... agora pensem quantos ja devem ter cedido... Viva o Palma e todas as pessoas que reveem as qualidades de um bom artista, e de um lutador a sua maneira....

Afixado por: Luis Vieira em setembro 25, 2007 10:52 PM

É impressão minha ou a "Encosta-te a Mim" está rapidamente a tornar-se o maior exito de sempre do mito? Pelo que tenho ouvido (e pelos comentários no meu blog pessoal tb) acho que toda a gente está a ficar doida com esta música... Eu subscrevo por baixo, a música é realmente fantástica, só espero é que esses putos de 18 anos fiquem curiosos e vão ouvir o resto... Claro que aconselho para começar o "Só", e se o mundo fosse perfeito, Luis, pode ser que não demore esses dez anos nem seja preciso o mito morrer :)

Dou só mais um ex do que o JP representa para mim. De todas as estrelas que já conheci pessoalmente (das minhas bandas de metal favoritas portuguesas, Moonspell e Desire, à minha banda favorita do mundo inteiro, Anathema, alguns jogadores de futebol, Figo incluido, e alguns outros de quem não sou propriamente fanático) só tremi das pernas com o JP. Com os outros apertei um bacalhau, ou falamos um bocado, ou bebemos uns copos, ou até fizemos algo ilegal... Sem o mínimo nervosismo... Com o JP estava a tremer das pernas... Era ele... o mito... O JP!!! lol

Afixado por: Almah Perditae em setembro 28, 2007 06:02 PM

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Meu e-mail é : Perpetala@hotmail.com. Os EMOS são um bando de VAGABUNDOS !!!.

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