março 21, 2007

Admirável Mundo Novo (2a Parte)

Na entrada anterior defendi a partilha de música na Internet. Para quem é contra este sistema a minha opinião pode parecer demasiado simplista, e até certo ponto dou-lhes razão. Há obviamente questões mais complexas que o imbecil “As editoras já ganharam o que tinham a ganhar.”, que â partida parece ser o que defendi.
Mas mantenho o que disse, e num exercício de futurologia vou tentar descortinar o “admirável mundo novo” da indústria musical do futuro.
Com a passagem dos factores “concerto” e “canção” para primeiro plano, iremos no futuro perder o privilégio de ouvir um bom disco? Não. Não iremos. O que se perderá é a responsabilidade da gravação de um disco ser entregue a qualquer banda ou músico. Por outras palavras. Dentro da provável concepção da indústria musical no futuro, o factor “disco” perderá a importância que tem hoje em dia. Se isso é negativo ou positivo já é relativo. Eu pessoalmente acho positivo. Honestamente acho que a maioria dos discos existentes no mercado não têm capacidade para se imporem como tal. A maioria não passam de meras colecções de canções, sendo a maioria delas meramente para ocupar espaço e fazer número. Com o advento do mp3, as canções respirariam por elas, o que no fundo é o que se passa agora. Acho que é por demais evidente que no universo musical, os discos são muitas vezes vendidos por uma ou duas canções e não pelo conjunto do disco. Logo, deste ponto de vista, a mudança passaria a ser positiva, tanto para o publico, que apenas teria acesso às canções que realmente interessam, como inclusivamente para os músicos, que não estariam obrigados a fazer canções apenas porque precisam de encher um disco, com resultados geralmente bastante pobres.
Mas… e os discos que realmente valem a pena? Esses continuarão a ser gravados. Qualquer musico que tenha uma ideia para um disco, que ache que vale a pena gravar esse disco terá sempre essa possibilidade, e irá em frente. É possível que nesse futuro próximo a industria não facilite essa opção aos músicos em início de carreira, e será impensável entregar essa tarefa dispendiosa a qualquer músico que ache que tem capacidade para tal. Mas quer seja por teimosia, num esforço solitário, com condições mais em conta, quer seja o músico que já possui o estatuto para exigir isso á industria, os discos que valem a pena continuarão a ser gravados. Por esta ordem de ideias, todos os músicos que apenas trabalham em estúdio, os criadores mais que intérpretes, que não conseguem encarar uma plateia e preferem o ambiente criativo do estúdio, continuarão a ter o seu lugar na indústria musical. Eventualmente com menor retorno económico, mas essa é uma opção pessoal de cada músico, e a selecção natural se encarregará de fornecer ou não a esses músicos a estabilidade financeira necessária. Pode não ser sempre justo, decerto que grandes mentes ficarão pelo caminho, mas o mundo é e sempre foi duro, e a justiça pouco ou nenhum peso teve na história da Humanidade.
Na tentativa das editoras se adaptarem ás novas tecnologias vendendo ficheiros na Internet, não será esta forma já por si justa? Por outras palavras, se nós ouvintes estamos a consumir o trabalho de alguém, não será o preço irrisório pago pelos ficheiros suficiente para devolver alguma justiça aos criadores e assim serem pagos pelo seu trabalho? Porquê a nossa necessidade enquanto ouvintes de exigir o download ser grátis? Não estaremos a ser egoístas? Pela parte que me toca confesso que sim. Caso exista uma editora que me garanta um mínimo de qualidade e quantidade de livre vontade pagaria para sacar música nova. Mas aqui há um pequeno pormenor. Se é verdade que de livre vontade qualquer pessoa compra um livro sem o ler, ou vai a um cinema ver um filme desconhecido, ou ver uma peça de teatro nunca vista, e deste modo estar a pagar por um produto que não conhece o conteúdo, também é verdade que ninguém o faz indiscriminadamente. Como tal, novamente aqui entra a lei do mercado, as editoras ou plataformas que ofereçam a garantia de uma boa relação qualidade/quantidade/preço poderão enveredar por esse caminho, todas as outras terão que publicitar o seu produto para poderem atingir esse estatuto, e a melhor forma de o fazer é com a disponibilização gratuita dos ficheiros. Esta é uma simples questão de selecção natural, algumas editoras serão bem sucedidas, outras não. É tudo uma questão de sorte, trabalho e tempo. Eventualmente serão criadas plataformas de agregação, portais em que estruturas de menor dimensão se associarão a outras igualmente reduzidas para juntas conseguirem competir com estruturas de maiores dimensões. É tudo uma questão de tempo, de visão, paciência e adaptação à evolução do mercado. Uma questão de negócio. Uma epopeia de politicas empresariais que já começou, e eventualmente culminará com a aceitação da industria actual de que a Internet é um facto, é a nova plataforma de divulgação, e com o tempo acabarão por aceitar que é na rede mundial que se começarão a desenhar os novos mitos, heróis e ícones da musica mundial.
Mas repito, continuo a acreditar que esta luta das editoras contra a partilha gratuita de ficheiros é a forma errada de lidar com esta questão. Talvez ingenuamente acredito que a coabitação das duas vertentes não é impossível. Então que vantagens existem em pagar por um serviço se o mesmo pode ser obtido gratuitamente, sem perda de qualidade no produto em si? Essa é a questão que as plataformas pagas têm que resolver. Em primeiro lugar a variedade. Um serviço pago terá que oferecer uma maior amplitude de ficheiros, não se deixar levar pela ditadura da maioria que é o que acontece nos programas de partilha existentes, estamos limitados ao que é mais popular, uma plataforma paga terá que oferecer aos seus assinantes a garantia de ter uma escolha livre e ampla, quanto mais melhor, porque verdade seja dita, se é verdade que os ficheiros mais populares acabarão por aparecer nas plataformas gratuitas, possibilitando a muitos o que poucos pagaram, também é verdade que os ficheiros menos populares dificilmente lá terão lugar. Quem quiser essa maior escolha pagará, quem não quiser terá gratuitamente aquilo que lhe derem. A batalha actual de combater esta forma de partilha gratuita é não só inglória como prejudicial. O esforço dispendido nessa tarefa seria mais bem empregue e rentável a longo prazo, se investissem numa maior variedade nos serviços pagos. Novamente aqui entra a selecção natural, à medida que o tempo avança cada vez mais pessoas preferirão pagar por um serviço com melhor qualidade que o serviço gratuito, e as plataformas com maior credibilidade serão mais bem sucedidas. As outras ficarão pelo caminho. E não é combatendo a partilha gratuita que fazem com que os consumidores optem por pagar, antes pelo contrário, serão as plataformas gratuitas que farão gratuitamente a publicidade necessária ás plataformas pagas. Em vez de serem o inimigo que procuram combater, serão antes o aliado necessário.
E este é o factor que a industria ainda não entendeu.
A partilha de música na Internet não é prejudicial a ninguém. Será, isso sim, se não se souberem adaptar, e essa adaptação passa não pelo combate mas sim pelo aproveitamento da rede. Ao disseminar, mesmo que gratuitamente, pela rede um ficheiro qualquer um músico não estará a ser mutilado nos seus direitos, antes está a mostrar a um vasto leque de ouvintes a sua arte, com o tempo, com paciência, terá o retorno financeiro merecido. Quanto mais gente ouvir uma musica, maior a possibilidade de essa musica tocar alguém, e esse alguém irá eventualmente acabar por devolver monetariamente esse privilégio de ouvir uma boa música, quer seja com a compra de merchandising, de um CD, de um bilhete de um concerto ou com a subscrição de um serviço de download pago onde procurará algo semelhante.
A indústria terá que se saber adaptar, investindo em músicos esperando o retorno financeiro, imediato ou a longo prazo, terá que ter visão, terá que procurar qualidade e não fabricar produtos.
Neste futuro próximo já se adivinha o retorno de uma categoria musical que estava desaparecida da indústria musical massificada. Falo dos concertos. E quando digo concertos não falo apenas do simples acto de tocar ao vivo, falo de obras pensadas, compostas e estruturadas no sentido de serem tocadas ao vivo. Aquela que hoje em dia é designada “música clássica” foi no seu tempo, em grande parte, composta neste sentido. Originalmente, a ideia de “disco”, foi introduzida na indústria musical pelos Beatles na tentativa de recriar para a música popular do séc. XX esse conceito que durante alguns séculos esteve confinado à música erudita. Mas esse conceito foi pervertido, e com o advento do CD criou-se na indústria essa ideia errada de que qualquer disco deveria ter um conceito ou uma linha condutora. Mas é por demais obvio que a música popular na sua esmagadora maioria vive de canções, como sempre viveu, e esse foi um conceito que o CD se encarregou de desvirtuar nas últimas décadas. No futuro próximo, a história se encarregará de devolver à música o respeito que ela merece, recolocando nos seus devidos lugares o peso e importância dos conceitos de canção, disco, concerto, festa e actuação. (Talvez até criando para a língua portuguesa, uma palavra que distinga os conceitos de concerto enquanto actuação num todo, e concerto como um simples alinhamento de canções.) E a industria já possui um formato que vai devolver aos concertos o seu lugar. Falo do DVD.
Historicamente o CD foi um engano. A ideia era desenvolver um suporte para filmes, mas a meio da pesquisa descobriram a possibilidade para a leitura de música. Partindo de dois princípios práticos desenvolveu-se a tecnologia para a musica, criando estas décadas de lucros abissais para a industria. Um dos princípios foi baseado na 9ª Sinfonia de Bethoven, que tem uma duração de 74 minutos, e desenvolveram o novo suporte com essa duração total. O outro principio foi desenvolver o som até ao limiar do audível para o ouvido humano, e foi essa a sua grave falha. O som é vibrações do ar, o ouvido humano capta sonoramente essas vibrações até ao limiar dos 20 KHz, o vinil consegue recriar essas vibrações até aos 100 KHz. Acima dos 20 KHz o ouvido humano não consegue distinguir o som, mas as vibrações interagem com o corpo, fazem-no vibrar, a musica ainda existe nesse intervalo, não ouvida mas sentida, e esse é um pormenor que na altura não se deu atenção, mas que recentemente se chegou á conclusão que afinal é um pormenor demasiado importante para ser menosprezado.
Com o desenvolvimento do CD até ao formato DVD, a ideia original da pesquisa, o CD pode enfim ser esquecido, e finalmente a industria já possui o suporte ideal para o desenvolvimento do conceito de concerto. Os discos continuarão a existir, preferencialmente em Super Áudio CD (CD’s com reprodução de som até aos 100 KHz, tal e qual o vinil) mas agora os discos poderão também ser pensados já como um todo, como um concerto, não apenas o factor musical mas também o factor visual, e nós, consumidores, já temos a tecnologia massificada de poder desfrutar desse produto em casa. Não há melhor exemplo para confirmar esta minha ideia do que o facto de esta ser uma ideia já em desenvolvimento, a falta dessa massificação do conceito concerto era tão gritante que a industria adoptou imediatamente a ideia. Infelizmente já existia uma discrepância acentuada entre o conceito de disco e o conceito de concerto, e ainda demorará um pouco a estes conceitos estarem devidamente formatados e encaixados no seu devido lugar, não obstante já existirem alguns casos bem sucedidos daquilo que será a norma.
Por tudo isto acredito que o futuro da música não está ameaçado como choram presentemente alguns agentes musicais. Antes pelo contrário. Acredito piamente que agora é que a Música voltará a ser aquilo que sempre foi: uma arte emocional, indescritível, a única arte capaz de tocar o ser humano a um nível quase visceral, misterioso. Longe de modas, de propagandas, de fabricação de falsos ídolos, através de factores exteriores àquilo que a Música realmente é e sempre foi – um abraçar do Espírito. E os abraços não se pagam, mas quem nos abraça com aquela intensidade que as palavras não descrevem… damos-lhe tudo o que temos. E por mais razões que nos dêem que a “pirataria” é crime e está a matar a musica… Pura e simplesmente não acredito, e é minha profunda convicção que agora é que a Musica irá voltar aquilo que sempre foi, e respondendo á pergunta inicial: Partilha ou Roubo? Partilha. Partilha no mais puro sentido da palavra, partilha da emoção, dos sentimentos, da majestade, da beleza, do mais puro e sublime que existe na Musica. E para todos os músicos e agentes da indústria que não concordam comigo dou-vos um conselho muito simples: façam e invistam em música de jeito, irão ver que quanto mais for partilhada (que é uma palavra lindíssima e que consegue descrever o sentido mais profundo, misterioso e místico da Música) mais venderá.
Por fim. O título desta segunda parte da crónica não é inocente. No “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, a globalização é conseguida à custa da individualidade. Todas as expressões artísticas são formatadas e estéreis, e qualquer forma de individualidade proibida, a bem da sociedade perfeita. Qualquer análise superficial da indústria musical nas últimas décadas não pode deixar de encontrar um paralelo entre essa sociedade “perfeita” e a nossa sociedade. Não será então a Internet, enquanto forma global de comunicação e principalmente, uma ferramenta em que o individuo, mesmo no seu conceito global, maior poder tem enquanto individuo, a ferramenta ideal para evitar essa queda, que estava a ser notória, nesse tal Admirável Mundo Novo? A Música é neste momento apenas o seu lado mais visível, mas isso única e exclusivamente pelo simples facto porque comecei este extenso texto. Porque a Musica é sem duvida a Arte mais Universal que existe, a expressão artística por excelência do próprio sumo da espécie Humana. Não a queiram prender. Deixem-na ser livre. Prender a Música é o mesmo que prender a Humanidade.

Publicado por almahperditae em 10:48 PM | Comentários (4) | TrackBack

fevereiro 01, 2007

Partilha Ou Roubo? (1ª Parte)

A música talvez seja de todas as artes a mais universal. É um facto. A pintura deve estar lá perto, qualquer uma das duas fazem parte da nossa história e cultura desde os primórdios dos tempos. São factos irrefutáveis, o Ser Humano não o é sem nenhuma destas artes, sempre nos acompanharam e sempre nos irão acompanhar enquanto o planeta ou algo que venha contra ele não acabar de vez com a nossa espécie. Qualquer uma das duas sofreu e sofre alterações que sempre acompanharam a evolução da Humanidade. Também é um facto, não há refutação possível. Mas este texto, como é obvio, apenas incidirá na musica, mais exactamente na questão do momento na musica, ou melhor, na industria musical – a partilha e/ou roubo de musica na Internet.
Sou completamente a favor. Mais. Acho que é a melhor coisa que aconteceu à indústria musical desde a invenção da gravação áudio. Por outras palavras, desde o início da indústria musical, tal como hoje em dia a conhecemos, até ao seu fim os seus maiores momentos foram a sua génese e o seu fim. No meio… apenas existiu o melhoramento das técnicas de gravação e o aparecimento do disco compacto de leitura a laser, que não serviu mais nada senão a própria industria.
A industria musical sempre existiu, desde os primórdios dos tempos que existem os músicos, a musica sendo uma arte universal sempre foi usada, quer para entretenimento, quer para a elevação do espírito humano, quer seja o trovador da Idade Média que percorria as estradas poeirentas de aldeia em aldeia tocando nas festas populares, quer seja um compositor magistral como Bach que era pago pela Igreja para compor musica para as missas, sempre existiu profissionalismo na musica e músicos profissionais, que dependendo do seu talento, ora tiveram vidas de luxo, ora tiveram vidas errantes no limiar da indigência. A diferença para a indústria musical dos nossos dias não é muita. Por isso, na minha opinião, acredito piamente que a partilha/roubo de musicas na net não dizimará a classe dos músicos, esses continuarão a sofrer as suas angustias pessoais e, caso o seu talento assim o permita, conseguirão ser profissionais, e alguns até terão o privilégio de uma vida de luxo à conta da musica. E não tenho nada contra isso, antes pelo contrário, adoraria saber que os meus músicos favoritos são tão bem sucedidos que compram Ferraris e Aston Martins como quem compra cuecas. Não me choca, e tristeza, só a de o meu talento de guitarrista não me permitir isso.
Segundo ponto, não tenho pena nenhuma das editoras que sucumbirem nesta revolução. As editoras exploraram os músicos e os seus consumidores devido a uma ganância exacerbada? Sim! Mas também há outras questões que nunca foram analisadas. Durante praticamente todo o século passado as editoras prestaram um serviço à música, e por arrasto, à Humanidade, que não pode ser desprezado nem esquecido. Durante milhares de anos a musica vivia apenas da presença física dos músicos, mal o musico se silenciava a musica morria consigo e a sua magia perdurava apenas na memória. Claro que as boas canções foram preservadas por outros músicos, foram passando de dedos em dedos, de voz em voz, e foram sendo reinterpretadas através dos tempos chegando até aos nossos dias. Ao longo do tempo vários sistemas de notação foram criados de modo a preservar por escrito algo tão etéreo como a musica. Mas… Nunca ninguém pensou como soaria uma peça de Mozart tocada ao piano ou violino pelo próprio? Como soaria o órgão de Bach com o próprio a interpretar? Como seria estar de olhos fechados a ouvir Paganini a tocar violino a nosso lado? Que sensações nos trespassariam caso Bethoven fustigasse o piano sem pernas e nós o ouvíssemos? Como seria? Provavelmente seria maravilhoso, mas nunca o saberemos… Felizmente no século passado não existe nenhum génio musical que nós não tenhamos a possibilidade de sentir a sua musica, tocada pelo próprio, sentida pelo próprio, e mesmo as versões, poderemos sempre ter a versão com que nos cruzámos e ouvir a mesma canção tal e qual o seu criador a sentiu. E isto é algo que teremos que estar agradecidos à industria musical, isto é algo sem par na historia da musica, o privilégio de poder ouvir génios, mesmo após a sua morte, a possibilidade de ouvir registos de músicos de paragens longínquas, músicos e musicas que nunca poderíamos ouvir caso não existisse uma industria musical que com sacrifício e amor à camisola da musica nos deram esse raro privilégio de ter músicos em casa, a tocar só para nós.
Claro que hoje em dia ninguém imagina uma major como uma empresa de sacrifícios, toda a gente tem a ideia de as editoras serem sanguessugas, principalmente as grandes editoras, e toda a gente tem a sua razão. No ano de 1985 a Phillips desenvolveu um sistema de leitura de áudio através de um laser, e a industria sofreu uma nova revolução. Teoricamente a qualidade era bastante melhor que o velho vinil (na prática não é assim, mas esta prática só foi descoberta recentemente e não é uma diferença audível, apenas sentida, de qualquer dos modos já é tarde para resolver esse problema… ou não), o produto final tinha custos de produção 50% mais baixos, para alem de ser bastante mais duradouro. Resultado, foi a galinha dos ovos de ouro da industria musical, e nos últimos 22 anos a industria musical teve metade dos gastos na produção dos discos, vendeu os produtos ao dobro do preço e revendeu novamente tudo aquilo que já tinha vendido antes da era do CD. Quem ganhou com isso? As editoras claro. Mas não só. Por incrível que pareça quem ganhou mais com esta súbita avalanche de dinheiro foi outra arte, o Cinema, que alimentado pelo dinheiro resultante da venda de CD’s sofreu nos últimos 22 anos uma evolução tecnológica sem precedentes. Claro que a evolução da informática foi fulcral em todas as áreas, mas apesar de tudo o Cinema foi dos que mais ganhou com isso, porque as editoras musicais a braços com números avassaladores investiram enormes quantidades no Cinema.
E chegamos agora ao ponto fulcral, o mp3. Sim, sou completamente a favor. Se é o fim dos músicos profissionais? Não, já disse porque não. Se é o fim da industria? Como a conhecemos sim, terá que mudar. Como? Voltando a ser aquilo que sempre foi. Tão simples quanto isso. A indústria musical não é a nossa era, a era do CD. Não. Isso foi um período ínfimo que está a acabar. Claro que as vozes da indústria se levantam, claro que as vozes de alguns músicos se levantam, afinal isto é o fim de uma era em que a industria usou e abusou dos consumidores. E fizeram muito bem. Eles tinham um produto e fizeram o seu preço, quem quiser que compre, quem não quiser que não compre, é a lei do mercado e não podemos nunca criticar isso, nem tão pouco podemos criticar este desespero notório da indústria e dos músicos (manipulados pela industria). Isto mexe-lhes no bolso, e ninguém gosta de perder rios de dinheiro certo, mas… As coisas são como são e não há nada a fazer. A Internet é um facto. Por isso é altura de a industria começar a mentalizar-se que a era do CD foi boa mas acabou, terão que voltar a ser aquilo que sempre foram, a musica enquanto industria basear-se nos concertos, a industria rodear a musica e trabalhar a musica enquanto forma quase ritualista, de presença física, sujeita ao factor humano, à magia de um concerto. Claro que os estúdios continuarão activos, mas agora de uma forma mais consentânea com o que foi a sua génese: o formato canção e não o formato disco, porque ao fim e ao cabo é isso que a musica é, canções, não discos. E a partilha na Internet levará os ouvintes ao concerto, e o ouvinte terá a possibilidade de ter uma variedade de ficheiros no seu computador tal, que o levará a ir apenas aos que mais aprecia. E os CD’s? Bem, os CD’s passarão a ser peças de colecção, vendidos apenas aos verdadeiros fãs, já agora no formato Super Áudio CD, talvez discos de edição limitada, preciosos, valiosos, meras pérolas de uma industria que se soube renovar e voltar ao ritmo de negócios que tinha à trinta anos, que soube aceitar que teve vinte anos em que ganhou mais do que conseguia gastar, uma industria que se movimenta nos bastidores, que entende a musica na sua magia e sacralidade, que sabe procurar os verdadeiros génios, que investe em músicos acima de qualquer suspeita, em vez de simplesmente fabricar produtos plásticos que não precisam da prova de fogo do palco porque o seu negocio não é o palco mas sim os vídeos que qualquer carinha laroca faz vender discos.
E isto será assim. As grandes editoras acabarão por cair caso não usem o seu poder para estarem na linha da frente. Acabou o seu monopólio, e nem vale a pena tentarem convencer-nos a comprar ficheiros de música. Ofereçam-nos, não como “oferta” mas como publicidade, que é no fundo o que o mp3 é. E querem uma prova? As vendas de discos têm caído a pique. É isso que nos enfiam todos os dias, certo? Sim, certo, mas só até certo ponto. O que caiu abruptamente foi a venda dos discos das grandes editoras, as pequenas e médias, trabalhando com números de vendas que chegam a ser ridículos estão cada vez a vender mais. Simplesmente porque a Internet está a tornar-se um media bastante mais eficaz de divulgação musical que as televisões ou as rádios. E ao contrario das televisões ou rádios, a rede não pode ser controlada, logo as pequenas editoras, baseadas no amor à musica, baseadas no sacrifício financeiro, baseadas na qualidade, estão a conseguir furar o cerco que o poder das grandes fizeram em torno da televisão e das rádios. Não vendem quantidades astronómicas é certo, mas vendem bastante mais do que venderiam caso a sua musica estivesse confinada ao silêncio. Logo este será o futuro da industria musical, sacrifício, o investimento baseado no risco, na certeza que o retorno apenas será compensador caso a musica, o principal factor desta equação, tenha qualidade, e os músicos ficarão confinados àquilo que sempre estiveram, aos concertos. Porque falando a verdade, naquele preço absurdo que pagamos por um CD as percentagens mais baixas são, e sempre foram, as atribuídas ao músico e ao preço do produto físico em si, o que é no mínimo ridículo.
E as grandes editoras? Aquelas que se queixam e criticam a partilha/roubo dos ficheiros? Aquelas que falando a verdade criticam no fundo apenas o facto de nós ouvirmos a musica antes de a comprar? Porque não tenhamos ilusões, o que eles nos pedem é que compremos musica sem ouvir, que paguemos um preço exorbitante sem saber o que compramos, como se o seu medo fosse percebermos antes de lhes darmos dinheiro que a musica não merece o nosso dinheiro. Essas grandes editoras, que investiram nos vídeos e nas carinhas larocas em vez da qualidade musical estão a ser desmascaradas, e estão a perceber que investindo no supérfluo, o supérfluo ficará confinado a isso mesmo, à porcaria de um ficheiro sem a mínima qualidade, perdido entre centenas ou milhares de outros ficheiros iguais num computador. Um ficheiro facilmente enviado para a reciclagem ao fim de pouco tempo, sem deixar saudades ou qualquer outro sentimento no ouvinte, mero lixo informático e sonoro que nos querem convencer que temos que pagar por ele. E os outros ficheiros? A música que nos toca, nos diz algo, nos faz sonhar, chorar, rir, saltar, amar? Essa ficará gravada na nossa memoria, essa nós enviaremos a amigos, conhecidos, falaremos dela… E eventualmente, quando o ficheiro estiver espalhado pela rede mundial, haverá sempre alguém a quem aquele som lhe disse algo que só ele poderá explicar, que sairá de casa, irá à loja mais próxima comprar, encomendar ou perguntar pelo disco. Porque haverá sempre música que temos que ouvir em toda a sua glória, com a qualidade de um CD original, sem aquele som abafado, triste e pobre de um reles ficheiro mp3. E é esta música que fica a ganhar com a partilha de música na Internet. Por isso eu sou totalmente a favor, simplesmente porque sou a favor da música.


(apesar desta análise a esta questão parecer bastante simples da minha parte, o texto já está demasiado grande. Como tal reservo para uma segunda parte uma análise às questões que possam parecer mais complexas.)

Publicado por almahperditae em 10:33 PM | Comentários (48) | TrackBack

dezembro 04, 2006

Kurt Cobain/Nirvana

Corria o ano de 1994, quando num dia de Abril uma noticia caiu que nem uma bomba sobre toda uma geração. Kurt Cobain, vocalista e guitarrista dos Nirvana, estrela rock, proclamado líder de toda uma geração tinha sido encontrado morto, causa oficial: ferimento mortal auto-infligido. E a questão do suicídio ganhou o seu exemplo mais mediático de todos os tempos.
O que levaria um homem que tudo tinha, a quem nada faltava, a decidir por um termo na sua vida? A questão da droga foi prontamente avançada como causa, problemas psiquiátricos demasiado profundos não podiam ser descurados, a pressão do mundo da musica o motivo mais consentâneo, mas na verdade, no fundo, foi tudo isso, e não foi nada disso. Matou-se. Pura e simplesmente. Não havia razões e havia todas as razoes. Kurt Cobain suicidou-se. E o mundo da musica via cristalizar-se um dos seus mitos mais estranhos e intensos, uma das personagens mais geniais, loucas, belas, desesperadas, raivosas, poéticas e emocionais de todos os tempos, uma das estrelas mais brilhantes de todos os tempos. Talvez… talvez muito provavelmente, naquele triste dia de Abril nasceu o maior ícone da história da musica…
Quem leu a ultima frase talvez parta do princípio que Kurt Cobain é Kurt Cobain, pelo simples facto de ter cometido suicídio. Não faltam exemplos de figuras banais, ou até medíocres cujo único lugar na história musical se deve a erros cometidos na sua vida, uma morte mais dramática, lendas criadas em seu torno, ou qualquer outra coisa que pouco ou nada tem a ver com a música. Kurt Cobain não se insere nesse grupo, antes a sua morte foi um encerrar lógico e tristemente previsível de um génio demasiado brilhante e atormentado que num curto espaço de tempo se desenhou nos píncaros da fama mundial, ante o olhar estupefacto de hordas de seguidores e admiradores. Quando toda a gente se surpreendeu com o seu génio, com a sua pureza, a loucura foi arrebatadora, a ascensão meteórica, e quando toda a gente esperava o seu afundamento abrupto, a queda do Deus com pés de barro, o seu génio brilhava ainda mais intensamente, e quando os mais cépticos se começavam a render à sua genialidade, começando a admitir timidamente que o rapaz até tinha algum talento, Kurt Cobain atingiu níveis musicais provavelmente nunca antes atingidos, e já não havia duvidas, o que ali se desenhava não era um acaso, não era uma moda passageira, não era sorte, já nem era puro talento, era antes o mais brilhante e refinado diamante que alguma vez tinha atingido as tabelas de vendas. No alto do seu trono, com o mundo a seus pés, com a industria e o publico rendidos, Kurt Cobain suicida-se, e o seu vazio foi transposto para um mundo atónico e incrédulo, nas semanas seguintes à sua morte as taxas de suicídio na América atingiram níveis recorde, o líder da geração do vazio tinha posto fim á vida e a geração do vazio foi atrás.
Mas quem era este homem? Quem era este musico? Que fez este homem para o seu legado ser neste momento o legado mais rentável do mundo? Isto apesar dos seus direitos de autor estarem duramente protegidos e a sua música e imagem estarem expressamente proibidas de serem usadas, embora a sua imagem seja de tal modo iconográfica que é legalmente possível fazer filmes biográficos sem uma única menção ao seu nome. A musica essa é que continua protegida, mas devido á sua influencia em tudo o que se fez nos últimos quinze anos, é muitíssimo fácil encontrar alternativas, mesmo sem ir para os casos mais mediáticos (para muitos jovens nascidos já os anos 80 iam avançados, deve ser complicado aceitar que bandas como os Blur ou os Radiohead são subprodutos do legado Nirvana).
O êxito dos Nirvana, apesar de possuir contornos míticos, tem várias explicações simples de entender. Em primeiro lugar, o mais importante, a musica. Não sendo uma música complexa, é uma música que possui contornos originais. Não sendo um guitarrista evoluído nem completo, Kurt Cobain era um guitarrista com uma capacidade de transpor para o ouvinte uma panóplia emocional complexa e de fácil acesso, possuía uma riqueza cromática rara e um sentido de dinâmica único. A sua voz, imagem de marca de toda uma geração, possuía a riqueza e o toque divino apenas acessível aos predestinados. Mas principalmente o seu génio estava nas composições, simples, facilmente identificáveis, facilmente tocáveis, quase como canções infantis, mas canções com uma sensibilidade pop, canções com aquele toque indescritível que faz as grandes canções imortais. Como hinos. Na minha modesta opinião, o único compositor de todos os tempos que não tinha variações na qualidade das composições, tudo o que fazia era divino, e não há um único exemplo de uma má canção, algo que nem os maiores compositores de sempre conseguiram, Lennon fez más canções, Dylan também, até Mozart e Bethoven tiveram os seus maus momentos, Cobain não.
Liricamente Kurt Cobain era um poeta. Apesar de não dar nenhuma importância ás letras das suas canções, as letras de Nirvana eram autênticos manifestos de uma geração perdida. Usando uma linguagem simples, Kurt Cobain desenhava imagens, momentos, emoções, filosofias que longe de se fecharem permitiam leituras múltiplas, permitiam interpretações cada vez mais densas, se desdobravam em versos que eram autenticas palavras de ordem, criando um caldeirão lírico que olhado superficialmente pode ser ora menosprezado ora inacessível, mas através de leituras e interpretações mais amplas acaba por ganhar uma dimensão que nunca chega a ser definitiva, dando azo a constantes debates e interpretações sempre subjectivas, nunca conclusivas, mas sempre belas e poéticas.
Por ultimo, a musica de Nirvana tinha uma qualidade sui generis no seu todo, apesar da voz de Kurt Cobain ser atormentada e dolorosa e liricamente ele preencher essa sonoridade com versos condizentes, a sua musica possuía um brilho quase simetricamente oposto, tinha fulgor, elevava o espírito, tinha algo de esperança, tinha algo de sublime e celestial, mesmo quando o seu som era sujo e violento. Deste modo a sua música era quase uma salvação para os seus fãs, apesar do desespero, apesar da dor, havia sempre aquela esperança, havia sempre o sorriso a rasgar as lágrimas…
Se estas qualidades, já de si únicas e especiais, não chegassem, Kurt Cobain tinha também a seu favor o tempo em que viveu. No inicio dos anos 90 o mundo atravessava uma crise económica, a Tempestade No Deserto tinha acabado de explodir (algo ainda não resolvido nos dias de hoje), e como tal, a geração emergente vivia uma grave crise de identidade, hoje em dia isso ainda é perfeitamente visível, porque o Ser Humano ainda não percebeu que estas crises são cíclicas e perfeitamente normais, e não adianta os nomes ou as desculpas que lhes dão, a verdade é que existem, e como tal o desespero, a crise de identidade, o tormento por que passava Kurt Cobain encontrou toda uma geração completamente permeável ás suas palavras, sedenta de um líder, de alguém que expiasse as suas próprias crises pessoais, o seu desespero e o seu tormento. Toda uma geração viu em Kurt Cobain o seu líder, identificou-se com a sua Arte, usou-o como porta-voz, como mártir, e rendeu-se ao seu génio. O seu suicídio foi desse modo para alguns o quebrar da esperança, por isso os níveis recorde de suicídio nas semanas seguintes. Para outros foi uma traição, uma fraqueza, desse modo hoje em dia muitos dos seus mais apaixonados detractores são indivíduos que outrora foram os seus mais fiéis seguidores.
Se nas razões apresentadas anteriormente estão as principais razões do mito de Kurt Cobain, existe ainda uma outra razão que muitas vezes é descurada. No final dos anos 80 havia um fenómeno na industria musical, não interessa qual o nome que se dava aos géneros musicais, ou qual a compreensão que havia naquela altura desse fenómeno, hoje em dia, já na segunda metade da primeira década do séc. XXI, é muito fácil compreender esse fenómeno, pelo simples facto que esse fenómeno ainda existe. Falo da musica pré-fabricada pelas editoras, a musica em que o talento ou a qualidade nada têm a ver com o facto de vender e ser popular, tudo não passa de produtos criados pelas editoras, que usando os media manipulam uma imensa maioria de pobres almas ignorantes e assim conseguem criar tabelas de vendas, produtos de entretenimento multifacetados, e desse modo alimentam uma máquina que se fecha sobre si mesma e se blinda de tudo o que a Arte tem de puro e sublime, criando uma aura de encantamento de massas perfeitamente previsível, falsa e ignorante. Mas naquela altura houve um facto que fez abalar por momentos a máquina, uma banda bastante popular na altura (Milli Vinnili se alguém tiver interesse em saber) que apesar dos prémios da indústria, dos milhões de discos vendidos e da popularidade planetária, quase destruiu a indústria musical. Num concerto, um simples disco riscado fez estalar o escândalo, os pobres moços não cantavam, na verdade eles nem tinham nada a ver com a musica, eles apenas foram as carinhas larocas escolhidas e vestidas pela industria para dar a cara e um ar da sua graça a um disco previamente gravado e tudo não passava de um logro da industria. Por momentos a maquina vacilou, ninguém acreditava já nos artistas populares, e é nesse momento, quando se chegava à conclusão que tudo era apenas falsidade e mentira que o riff da “Smells Like Teen Spirit” rasgou a desconfiança, ecoou em toda a sua grandiosidade e pureza, brilhou fulgurantemente no meio da lama do mainstream, e todo o mundo se deixou enlevar pela musica e tudo o que ela tem de puro, sublime e mágico. O público, quer o ignorante quer o outro, encantou-se, afinal a magia ainda existia, afinal a musica ainda era uma Arte arrebatadora. A indústria suspirou de alívio, era uma excelente maneira de esquecer o abalo anterior, foi atrás da onda em bicos de pés, e durante alguns anos entregou o mainstream aos artistas puros, para passar uma esponja sobre o escândalo. E por momentos na indústria musical respirou-se um ar de qualidade, pureza e magia…
No centro deste terramoto, isolado e majestoso, um nome brilhava mais alto, uma voz gritava para o seu eco perdurar através dos tempos, apesar de perdidos na sua própria confusão, uns olhos azuis olhavam a confusão em seu redor, uns dedos embalavam as cordas de uma guitarra que embalava toda uma geração, todo um planeta… Os mesmos dedos que no dia 5 de Abril de 1994 agarraram uma arma, encostaram o cano ao queixo, e num acto desesperado e decidido, dispararam a arma, espalhando o seu sangue, pele, ossos, dentes e cérebro pela parede da arrecadação do seu jardim, escrevendo deste modo o ultimo capitulo, do ultimo e maior mito da historia da musica – Kurt Cobain. E a musica nunca mais foi a mesma… Nem tão boa.

Publicado por almahperditae em 08:05 PM | Comentários (25)

maio 12, 2006

Sexo, Drogas E Rock & Roll #1

Talvez não seja tão complicado como pode parecer a primeira vista discernir o momento em que o rock & roll nasceu. Não se sabe ao certo o dia, mas sabe-se a hora exacta. Meia-noite, num qualquer cruzamento na América profunda dos anos 30 do séc. XX. O seu criador? Robert Johnson. O seu mentor? Satanás.
Conta a lenda que um jovem guitarrista negro sem talento, sem qualquer apoio na vida, perdido numa América racista, preso numa vida de miséria, tinha um sonho: ser músico. Mas o blues que crescia no sub-mundo dos campos de algodão, memorias perdidas de uma Africa longínqua para toda uma classe de pobres trabalhadores negros, era algo inacessível a um pobre adolescente sem o mínimo talento, foragido de uma vida de miséria e de crime, condenado a uma existência fugaz, sem sentido, esquecida… mas numa noite que ele fez questão de recordar, num qualquer cruzamento que a memoria não reteve, o seu destino mudou, e com ele todo o destino da musica no séc. XX. Encontrou o Diabo, que lhe prometeu o talento em troca da sua alma, comércio que o jovem não hesitou em aceitar, visto que a sua alma de pouco ou nada valia. O adolescente continuou a fugir, mas em cada cidade que chegava, fruto de acasos, de conhecimentos fugazes, do destino talvez traçado pelo próprio Satanás, fazia sempre uma breve passagem por um qualquer estúdio de gravação arcaico, perdia sempre quinze a vinte minutos do precioso tempo do estúdio para gravar umas brincadeiras com a sua guitarra de péssima qualidade, barata, brincadeiras que divagavam entre amores perdidos, solidões demasiado violentas, e Satanás… sempre a pairar sobre a sua vida.
Gravou ao todo trinta e nove canções, que foram recolhidas ao longo de alguns anos por um editor que ouviu por acaso uma dessas gravações esquecidas num estúdio, e fez questão em descobrir o homem que as tinha gravado. Nunca o descobriu, soube que tinha morrido, nunca conheceu o negro que cantava e tocava como nunca ninguém tinha ouvido até então, mas fez questão em divulgar essas gravações que foi descobrindo na busca de Robert Johnson, mostrou ao mundo o génio que mudou todo o curso da música.
Depois de Robert Johnson nunca mais nada foi como até então. E foi este o momento em que nasceu essa fantástica aventura que é a música popular do século XX. Rock & Roll, Soul, Jazz, Metal, Hip-Hop, Pop, Techno, Trance, Punk… Toda a música no século XX tem um nome: Robert Johnson.

Publicado por almahperditae em 05:04 PM | Comentários (833)

agosto 09, 2005

O Regresso

Após um longo período de silêncio, por decisão uninânime de todos os membros restantes que compôem este blog (ou seja eu e eu mesmo) foi decidido trazer este cantinho de volta à actividade.

Como os outros membros encontram-se desaparecidos em combate, ou seja, desaparecidos em combate (duas vezes), quem quiser colaborar na escrita de novos textos relativos a música, que entre em contacto comigo deixando um comentário.

Publicado por HeartLess em 07:14 PM | Comentários (21)

dezembro 31, 2004

O que por aí vem...

Pois é, agora que mais um ano novo se aproxima, ficam por aqui alguns dos melhores lançamentos que se esperam para o próximo ano.


Janeiro

··· - Pain Of Salvation - BE [DVD] (Bom)
05 - The Provenance - How Would You Like To Be Spat At
10 - Graveworm - (N)utopia (Mais do Mesmo. Bom)
17 - Kreator - Enemy of God (Muito Bom)
17 - Grave Digger - The Last Supper (Bom)
24 - Masterplan - Aeronautics (Mais do Mesmo. Bom)
24 - Tristania - Ashes (Ligeiramente melhor que último. Médio)
24 - Dark Tranquillity - Character (Excelente. Talvez o melhor da banda até hoje)
24 - Darkseed - Ultimate Darkness (Bom)
25 - Destroyer 666 - Phoenix Rising (Bom)
31 - Trail Of Tears - Free Fall Into Fear (Bom)

Fevereiro

··· - Aeternus - Hexaeon
··· - Shaman - Reason
··· - Stratovarius - PopKiller
··· - My Dying Bride - Antwerp [DVD]
··· - Apocalyptica - Apocalyptica
··· - Iced Earth - Gettysburg [DVD]
21 - Paradise Lost - Paradise Lost
21 - Green Carnation - The Quiet Offspring
28 - Moonsorrow - Verisäkeet (Excelente)
28 - Judas Priest - Angel Of Retribution
28 - Soilwork - Stabbing The Drama (Bom)
28 - Running Wild - Rogues en Vogue

Março

··· - Symphony X - AND
··· - Sodom - TBA [DVD]
··· - Dark Moor - Beyond The Sea
··· - Mourning Beloveth - A Murderous Circus
··· - Overkill - Relix IV
··· - Lamb Of God - Killadelphia [DVD]
08 - Black Label Society - Mafia
08 - Novembers Doom - The Pale Haunt Departure
09 - Hammerfall - Chapter V: Unbent, Unbowed, Unbroken
14 - Kamelot - The Black Halo
21 - To Die For - IV
22 - Strapping Young Lad - Alien
22 - Six Feet Under - 13
22 - Queens Of The Stone Age - Lullabies To Paralyze

Abril

··· - Sentenced - AND
11 - Meshuggah - Catch 33 (Excelente)
12 - Lullacry - Killer

Maio

··· - Carpathian Forest - Fuck You All
··· - Candlemass - AND
··· - Jack Frost - Wannadie Songs
··· - Solitude Aeturnus - Alone
23 - Charon - AND

Junho

··· - Helloween - AND

Julho

··· - Eternal Gray - Your Gods, My Enemies
··· - Virgin Steele - AND

Agosto

··· - Sodom - AND

Setembro

03 - Children Of Bodom - AND

Outubro

··· - Furia - Kheros
··· - Primal Fear - AND

Dezembro

··· - Illnath - Second Skin of Harlequin

Em principio irá sair também um novo álbum de Opeth talvez no verão mas ainda sem data ou nome anunciados.



Legenda:

··· - Ainda Sem Dia Anunciado
AND - Ainda Não Divulgado
() - Opinião rápida dos que já tive a oportunidade de ouvir.

Publicado por HeartLess em 01:22 AM | Comentários (9)

janeiro 23, 2004

Chandeen

Espera-se para o final deste mês, o novo álbum de uma das bandas mais conhecidas do movimento musical etéreo europeu - Chandeen. De facto, com quase 13 anos de carreira, esta banda tornou-se numa das embaixadoras do género, não só devido aos arranjos musicais, como pela suavidade das letras e pela profundidade das vozes de Antje Schulz e Stephanie Härich.
Nascida em Frankfurt, Alemanha, em meados de 1992, a banda surgiu pela mão do “alma-mater”, compositor e nos teclados, Harald Löwy e Oliver Henkel, respectivamente, e depressa se transformou numa das melhores e mais bem reputadas bandas do género etéreo wave-pop. Embora de início se possam inserir numa vertente mais gótica (vertente sempre omnipresente em Chandeen), de facto, os seus álbuns têm vindo, progressivamente, a alcançar uma cada vez maior notoriedade, pela sua espantosa profundidade e sensualidade vocal e musical, constituindo hoje em dia uma das melhores bandas europeias deste panorama musical.
Perfazendo a dezena, os álbuns da banda são possuidores de um todo de poesia, sensualidade e obscuridade, por vezes, mas, sem dúvida, donos, também, de belíssimos acordes e sons electrónicos.
Enquanto o novo e derradeiro álbum da banda, “Pandora’s Box”, não chega até nós (lançamento previsto para o dia 28 deste mês), deixo-vos com três propostas: “Shaded By The Leaves” (1994), “Jutland” (1995), “The Waking Dream (1996)”.
Três albuns bastante diferentes, todos denotadores de uma viragem na história do grupo, sem perder, no entanto, a alma que o caracteriza. “Shaded By The Leaves” é, sem dúvida, o mais “obscuro” dos álbuns de Chandeen. Caminhando por “Scottish Hills”, “The World of Lost and Found”, ou pelas batidas da musical “Rain Dance”, Chandeen revelam aqui um pouco do seu génio, mas pressente-se que falta algo. Que são capazes de muito mais. E é isso que se sente em “Jutland”, o melhor representante, a meu ver, dos primeiros anos do grupo. Em “Jutland”, mergulhamos, sem dúvida, num ambiente de fantasia, criado algures dentro de nós. Os acordes fantásticos e as vozes de Antje e Catrin (que deixou o grupo após o lançamento deste mesmo álbum, vindo a ser substituída por Stephanie Härich) como que se fundem na nossa voz e é difícil não sentirmos nascer um novo olhar sobre o que nos rodeia ao ouvi-las, sobretudo nas faixas “Ginger” e “Jutland”.
Considerado por muitos como o melhor e mais bem sucedido álbum dos Chandeen, “The Waking Dream” marca a viragem da banda e reafirma a sua posição como uma das melhores da Europa.
Não deixem de ouvir a “Papillon”, “My Life” e “To the wild roses” e porque não, “See the Light”. O mais recente álbum “Echoes”, de 2003, é também de um êxito assinalável - cuja faixa com o mesmo nome é um eco do próprio coração da banda: genial e profundo - e está a ser tão bem recebido pela crítica, como pelos seus fãs, que esperam que a banda germânica se decida pela não dissolução, já anunciada para após o lançamento de “Pandora’s Box”.
Mas, ainda que a banda deixe de existir, sem dúvida que vale a pena ouvir...

Antje Schulz - vozes
Stephanie Härich (nos dois primeiros álbuns ocupava o lugar Catrin Mallon) - vozes
Axel Henninger - guitarra
Dorothea Hohstedt - flautas
Harald Lowy and Oliver Henkel - todos os outros instrumentos


Jutland (1995), HyperiumEchoes (2003), Kalinkaland Records O tão ansiado Pandora’s Box

Site Oficial: www.chandeen.com

Publicado por Jelliel em 05:30 PM | Comentários (2)

janeiro 21, 2004

Moonspell

São a mais popular banda de Metal nacional. São a mais bem sucedida banda de Metal nacional. São a banda portuguesa com maior exposição alem-fronteiras. Chegaram onde mais nenhuma banda nacional chegou, ou sequer se aproximou. São o exemplo mor duma carreira bem sucedida, quer no universo metaleiro, quer fora dele. Mas... O que fez este sucesso? Porque eles e não os Decayed ou os Filli Nigrantium Infernalium(FNI), que iniciaram ao mesmo tempo, com os mesmo meios, e tendo que travar as mesmas lutas? A resposta é mais simples que o que parece: qualidade, profissionalismo, humildade e sorte. Afinal aquilo que faz uma grande banda.
No inicio faziam parte duma triade obscura que tentava impor em terras lusas o som pesado, rapido e intenso do black metal. Juntamente com os Decayed e com os FNI começaram a dar os primeiros concertos de black metal em Portugal, com um cuidado especial nos elementos cénicos, fazendo do acto de tocar ao vivo um espectaculo intenso e teatral de modo a impressionar as almas nacionais pouco acostumadas ao som pesado, demolidor e rapido que começava a despontar neste cantinho a beira-mar plantado. Com a edição da demo "Anno Satanae" em Fevereiro de 1993, os Moonspell agitaram as aguas do underground nacional e internacional, assinando um contrato com a editora francesa Adipocere para um mini-cd que foi editado um ano depois.
"Under The Moonspell" foi uma pedrada no charco, um disco fresco, genial, invulgar e deveras original que ainda hoje é a Biblia de algumas bandas que tentam recriar o estilo de black-metal lusitano, infelizmente sem a mesma capacida envolvente dos Moonspell, não que não possuam qualidade, mas nesta estreia, os Moonspell para alem de criarem um novo som, conseguiram a proeza de o colocar num Olimpo de tal modo elevado que toda e qualquer tentativa de o alcançar, é frustado a nascença. Aconselha-se a faixa "Opus Diabolicum". Sem mais palavras...
Tal como todas as outras bandas, tambem os Moonspell sabiam que reproduzir (ou pelo menos tentar) este disco, era uma tarefa complicada, para não dizer impossivel. Por isso tomaram a atitude certa: não tentar faze-lo. Abandonando o seu filho pródigo, mudaram quase que radicalmente o seu som, e em vez de black-metal lusitano, a sua segunda incursão em discos oficiais, e primeira em longa duração, já na Century Media,da-nos a ouvir um som gótico, medieval, de força e poder, conjugando ritmos demolidores, com melodias atraentes e sons ambientais que nos transportam para outras épocas e outros lugares. O êxito foi esmagador. O mainstream estava ali a porta, o culto crescia em torno dos hinos "Alma Mater" e "Vampiria", o sucesso alem-fronteiras foi imediato, e o culto na sua terra natal devastador. Eles já eram a grande banda nacional. Já eram a grande banda europeia do gothic metal. E agora? Dois grandes discos, uma escalada repentina mas sustentada para o êxito, chegaram ao limiar de todas as bandas. A hora da verdade. Toda a gente sabe que uma banda que cresce como eles cresceram, e chegam ao terceiro disco com um sucesso enorme, chegados ao terceiro disco têm que provar que merecem o sucesso.
E mereceram. "Irreligious", o melhor disco da carreira dos Moonspell, um gótico atmosférico que ofuscou tudo e todos (na Alemanha, a VIVA elegeu-os revelação do ano de 1996, ultrupassando nomes como Korn e Marilyn Manson), um dos melhores discos de metal de todos os tempos, o disco de metal europeu mais vendido de sempre, um extase para os ouvidos, uma obra-prima. O disco perfeito de gótico, sem a mínima dúvida um disco que os colocou em definitivo na rota do êxito. Músicas que sobressaiam? O disco todo sem a minima duvida, mas claro que "Opium", "Full Moon Madness", "Mephisto"... Foda-se... O disco todo mesmo. Na minha opinião o melhor disco de sempre nesse estilo tão rico como é o gothic, o melhor disco de sempre duma banda de metal nacional. Um disco óbrigatório!!!!

E depois?
Depois... Depois foi controlar o êxito com o profissionalismo que têm demostrado neste ultimos quase que dez anos. As edições sucedem-se, os discos vendem-se, os concertos em Portugal são raros mas êxito garantido, as digressões pelo estrangeiro são fartas e com grandes bandas de apoio e toda a gente sabe, que apesar de os discos serem bons, apesar de ao vivo serem das melhores bandas europeias, apesar de Moonspell ser sinónimo de qualidade, toda a gente sabe que o fulgor se foi... Que toda a sua carreira esta sustentada nessa fabulosa triade do inicio, e caso não fosse isso, caso não existisse o "Wolfheart" e o "Irreligious" (visto que o "Under The Moonspell" é ignorado ao vivo, e apenas recuaram a ele três vezes) os concertos de Moonspell seriam uma perca de tempo com bons elementos cénicos.
Sabem ou não sabem?


Formação:

Fernando Ribeiro voz
Mike Gaspar bateria
Pedro Paixão teclados e guitarra
Ricardo Amorim guitarras
Ares baixo


Discografia:

Anno Satanae demo 1993
Under The Moonspell mini-cd 1993
Wolfheart CD 1994
Irreligious CD 1995
Second Skin single duplo 1996
Sin/Pecado CD 1996
The Butterfly Effect CD 1998
Darkness And Hope CD 2001
The Antidote CD 2003


Site Oficial: Moonspell

Publicado por almahperditae em 07:46 AM | Comentários (579)

dezembro 23, 2003

Desire

Sente-se no ar.
Há muito tempo que digo que o próximo grande som no mainstream será o Metal, mais exactamente o doom metal. Porquê? Porque tem tudo aquilo que faz as estrelas, tudo aquilo que o povo, abrangente e amorfo, quer e precisa. è intenso, é belo, tem emoção. Com o tempo, com a habituação ao novo som, com o maior conhecimento das bandas, o doom metal conseguirá atingir um público mais vasto. Como toda a gente sabe, o doom, no meio de todas as subcategorias do universo metaleiro consegue uma personalidade própria. primeiramente devido ao ritmo (mais pausado, dando maior importância a emoção que ao físico), e tambem, e muito, devido ao facto de as bandas que começam ou pertencem a este movimento, regra geral, conseguem ser mais abrangentes. pegando em multiplas influencias para a obtenção "daquele som", daquela emoção. Eu muitas vezes comparo o doom no universo metaleiro, com o trip-hop no universo electrónico. Talvez por isso, muitas vezes, uma tão estreita relação entre estes dois estilos ou sub-estilos.

Quando a passagem para o mainstream for feita, penso que existem duas bandas que a partida terão lugar no Olimpo das grandes bandas: Anathema e My Dying Bride. Neste momento tanto uma como outra, possuem músicas suficientes para conseguir a eternidade artistica na lembrança colectiva. Confesso que no meio de tanta genialidade a música que primeiramente me ocorre é a "One Last Goodbye" dos Anathema, visto que aqui se encontra aquela que porventura será a MELHOR música de Amor de sempre (apesar de ser sobre a morte da mãe dos irmãos Cavanaugh, mas se ninguem souber desse pormenor ele passa completamente despercebido). Mas... Quem fará o boom? Dificil dizer, visto que provavelmente, os putos que a formarão ainda nem entraram pela primeira vez na garagem de um deles. Mas eu penso estar na eminência um boom talvez em pequena escala, mas decerto avassalador: Desire.
Esta banda não é nova. Muito pelo contrário, completam em Julho do próximo ano 12 anos de existência. Mas estes 12 anos, foram passados na obscuridade, com rarissimos concertos, e péssimas distribuições dos seus 3 discos. Mas á medida que o culto desta banda cresce, e a promessa de um quarto disco, provavelmente já com uma distribuição decente, se avizinha, a revisitação ao seu espólio revela estarmos na presença de uma das melhores bandas de doom metal do Mundo, e sem a mínima dúvida, a melhor banda existente de doom atmosférico. Que significa isto? Que a sua música revela pormenores capazes de nos embrenhar em paisagens líricas e musicais de intensa melancolia e tristeza, com uma teatralidade envolvente que nos fascina do primeiro ao ultimo segundo, usando o melhor do gothic, do black e do death, em ritmos lentos, intensos e hipnotizantes que nos transportam para um universo negro, melancolico e lírico de Amor, Solidão e Morte.
Eles estão aí. E eles vão rebentar.
Sente-se no ar...

Formação:

Tear tragic and dramatic vocals
Mist electric guitars
Tempest Electric bass guitar
Ashes grand piano and keyboard effects
Flame drums and percussions

Discografia:

Death Blessed By A God demo'93
Advanced Tape demo'95
Infinity... A Timeless Journey Through An Emotional Dream CD'96
Pentacrow MCD'97
Locus Horrendus CD'01

(Só um aparte... São de Lisboa, Portugueses, e fazem uma interessantissima mistura entre o Inglês e o Português usando amiúde trechos de uma das maiores influências do seu universo: Fernando Pessoa.)

Publicado por almahperditae em 07:10 PM | Comentários (12)